Crítica: Vice

Vice, EUA, 2018


Filme revela uma faceta desconhecida da geopolítica da década de 2000

★★★★☆


Na medida em que o mundo vai ficando cada vez mais confuso, nós tendemos a focar nas coisas que estão bem na nossa frente enquanto ignoramos as gigantescas forças que realmente mudam e moldam as nossas vidas. Com as pessoas trabalhando por cada vez mais tempo e recebendo cada vez menos, quando temos tempo livre, a última coisa que queremos são complicadas análises do nosso governo, lobbying, acordos comerciais internacionais e legislação fiscal. Então não é de se surpreender que quando um monótono e burocrático vice-presidente chegou ao poder, nós mal percebemos.

Esse trecho das falas do narrador de Vice revela o principal motivador dessa cinebiografia: desvendar o poder e a influência que o vice-presidente Dick Cheney (interpretado por Christian Bale) exerceu durante as administrações de George W. Bush (Sam Rockwell). Para tal, o diretor e roteirista Adam McKay combina a dramatização com uma estrutura de documentário, fazendo do humor o principal veículo para compartilhar informações com o público.

Parte da crítica tem reclamado da falta de sutileza e contra-pesos no roteiro de Vice, mas o objetivo da obra não é o de traçar um perfil sóbrio e ponderado de seu objeto de estudo. Não há aqui interesse em Cheney como ser humano e pai de família, mas sim como um astuto e eficaz operador político que, durante um certo período, se tornou a pessoa mais poderosa do mundo. O foco de McKay está em informar sobre esses acontecimentos.

Isso explica a inserção do humor nessa narrativa, que não é inerentemente cômica. O ritmo “pop” e a sátira exagerada tornam a história mais palatável para um público que está, acima de tudo, em busca de entretenimento. McKay não está tratando os espectadores como idiotas, mas sim adequando a mensagem para o público que ele quer atingir. Uma pessoa que já conhece os principais eventos e escândalos dos anos Bush pode achar Vice demasiadamente didático, o que significa apenas que ela não faz parte do público alvo dessa produção.

Porém, é nesse ponto que reside uma das principais fraquezas do filme: talvez ele não seja didático o suficiente. Para entender o peso de certas referências, o espectador precisa já ter uma boa bagagem de conhecimento geopolítico, o que é um tanto paradoxal para uma produção como essa. Em certos momentos, longas listas de nomes e acontecimentos são jogadas no ar, a maioria deles com os próprios escândalos e relevantes trajetórias políticas.

Mesmo personagens que aparecem em Vice como coadjuvantes possuem mais peso do que o roteiro dá a entender. Exemplos disso são Donald Rumsfeld (Steve Carrel), Paul Wolfowitz (Eddie Marsan), Scooter Libby (Justin Kirk), Condoleezza Rice (LisaGay Hamilton), Colin Powell (Tyler Perry), Antonin Scalia (Sam Massaro/Matthew Jacobs), Roger Ailes (Kyle S. More) e Henry Kissinger (Kirk Bovill).

Felizmente, há uma grande cinematografia americana cobrindo muitos dos eventos políticos do país ao longo da segunda metade do Século XX e início do Século XXI, permitindo que o espectador mais interessado busque um contexto mais rico para a trajetória de Dick Cheney.

Para começar, três desses 8 Filmes Sobre Jornalismo Baseados em Histórias Reais se passam durante e após a conturbada presidência de Richard Nixon, o presidente republicano que renunciou ao cargo para não sofrer um processo de impeachment. Vice mostra como essa renúncia e a ascensão de Gerald Ford (Bill Camp) possibilitou a volta de Cheney e Rumsfeld aos altos escalões do poder.

Também é possível traçar um paralelo entre a trajetória de Cheney e a do operador de baixo escalão Roger Stone, que é mostrada no documentário Get Me Roger Stone. Admirador de Nixon e de Ronald Reagan, Stone foi um dos homens que estabeleceu o padrão operacional das campanhas eleitorais republicanas desde os anos 1970, incluindo uma considerável atuação durante a recontagem de votos na Flórida na eleição de 2000. Recentemente, ele foi preso pelo FBI devido a seu envolvimento com a inteligência russa durante a campanha eleitoral de 2016.

Uma vez que Bush assumiu a presidência, Cheney assumiu o poder. Os ataques terroristas de 11 de setembro deram a ele e seu falcões de guerra (principalmente Rumsfeld e Wolfowitz, mas também o belicoso e controverso John Bolton) a desculpa necessária para declarar a Guerra ao Terror, que teve início com a invasão do Afeganistão. Porém, o que os falcões realmente queriam era invadir o Iraque de Saddam Hussein.

Vice mostra as mentiras e as fantasiosas associações elaboradas por Cheney e seus comparsas para justificar a invasão do Iraque. Esse processo é satirizado no filme Conversa Truncada, que mostra corretamente como um pouco confiável relatório da inteligência britânica foi usado como peça chave na justificativa.

Quando o diplomata Joseph C. Wilson começa a apontar as mentiras nas quais a invasão do Iraque foi baseada, Cheney retalia vazando a identidade da esposa do denunciante, Valerie Plame, como agente secreta da CIA. Isso é mostrado em uma cena rápida de Vice, mas os desdobramentos dessa ação sobre a vida do casal são mostrados no filme Jogo de Poder. Scooter Libby é usado como bode expiatório e acaba condenado pelos crimes associados ao vazamento, mas sua sentença foi diminuída por Bush em 2007 e a condenação foi completamente anulada por Donald Trump em 2018.

Esses são apenas alguns dos exemplos mais notáveis de episódios mostrados em Vice e detalhados em outros longa-metragens. Filmes como Argo, Zero Days (sobre o qual escrevi aqui), Trabalho Interno e A Hora Mais Escura podem prover ainda mais contexto sobre o mundo no qual Dick Cheney operava.

Com performances memoráveis de Christian Bale e Amy Adams (que interpreta Lynne Cheney, a força motriz por trás de Dick), Vice mostra um Adam McKay tentando repetir a fórmula de sucesso do premiado A Grande Aposta. O resultado aqui pode não ser tão refinado como naquele outro filme, mas talvez seja ainda mais relevante.