Crítica: Tomb Raider – A Origem

Tomb Raider, Reino Unido/EUA, 2018


Roteiro e direção não fazem justiça à ótima escolha de Vikander como protagonista

★☆☆☆☆


Tomb Raider: A Origem tinha tudo pra ir além dos típicos filmes baseados em vídeo games: uma heroína carismática interpretada por uma ótima atriz, uma história enxuta e a oportunidade de criar intensas e memoráveis cenas de ação. Porém, Alicia Vikander como a protagonista Lara Croft é o único elemento que realmente funciona nesse filme. O roteiro, apesar de enxuto, não se esforça para fazer sentido e justificar as escolhas feitas pelos personagens. Já as razoáveis cenas de ação estão longe de compensar pelas outras falhas do filme.

Apesar do desejo de Croft de confirmar a morte de seu pai, Lord Richard Croft (Dominic West), ser uma ótima forma de motivar a trama, as escolhas feitas pela personagem não fazem muito sentido. Seja sua ida a uma loja de penhores para conseguir dinheiro ou seja a contratação de Lu Ren (Daniel Wu), um completo estranho, para levá-la a um dos lugares mais perigosos do mundo, nada é fundamentado em pensamentos ou necessidades críveis. Nessa mesma linha, os coadjuvantes tomam estritamente as decisões que a trama precisa que eles tomem, sendo unidimensionais e quase desprovidos de quaisquer outras qualidades humanas.

Para piorar, tudo isso ocorre ao longo de diálogos óbvios, previsíveis e, em alguns casos, estúpidos. Alguns dos momentos mais inteligentes do filme são quando todos os personagens estão calados. Isso, inclusive, poderia ser explorado para se construir um genuíno clima de mistério. Enquanto no vídeo game o jogador é obrigado a observar os detalhes e pensar para seguir em frente, aqui o espectador tem tudo explicado de forma didática e anti-climática. Em outras palavras, a história de Tomb Raider: A Origem é boa o suficiente para um jogo eletrônico, no qual o jogador tem várias outras fontes de entretenimento além da história em si, mas não para um longa metragem.

Além disso, a narrativa abusa de clichês de forma pouco vista hoje em grandes filmes. Mesmo os formulaicos filmes de super-heróis ou de ação em geral (como a franquia Velozes e Furiosos ou filmes estrelados por Liam Neeson ou Jason Statham) tentam adicionar elementos novos para impressionar o público, seja na dramaticidade, na comédia ou no absurdo das sequências de ação. Porém, Tomb Raider: A Origem tenta manter a seriedade enquanto se sustenta em clichês que estão velhos desde a década passada. Um dos exemplos mais gritantes é como os soldados do exército do vilão são grotescamente ruins de mira e completamente desprovidos de visão periférica, sendo pegos de surpresa e derrubados por uma Lara Croft armada com um arco e flecha.

Todos esses detalhes poderiam ser ignorados se a narrativa fosse uma montanha-russa de ação e diversão de encher os olhos, mas esse também não é o caso. Das cenas de ação iniciais, duas são perseguições que, ainda que funcionem individualmente, são terrivelmente justificadas pelo roteiro. Dentre as outras, as mais plausíveis são aquelas nas quais Croft está apanhando dos outros ou dela mesma (como na cena da carcaça do avião), o que nos deixa mais preocupados do que empolgados com a personagem. Dado o pequeno porte físico de Vikander, o roteiro e os coreografos de luta poderiam ter focado em como ela supera (ou usa em seu favor) essa aparente desvantagem, como nos poucos momentos em que ela usa golpes típicos do jiu-jitsu brasileiro.

Diante disso, o filme falha em alcançar o nível de qualidade de produções B como as das franquias Resident Evil e Underworld, que pelo menos possuem cenas de ação tão estilosas quanto comicamente exageradas. Outros derivativos de outras mídias, como Assassins Creed (crítica aqui) e A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (crítica aqui), também são bem superiores, ainda que compartilhem uma marcante característica com Tomb Raider: A Origem: todos eles foram feitos com o objetivo de ser o primeiro de uma franquia. Enquanto nos outros dois a história foi significativamente alterada para se encaixar nos planos comerciais dos estúdios, em Tomb Raider há “apenas” um epílogo (que possui flashbacks de cenas que foram mostradas menos de 5 minutos antes, é verdade) para deixar o gancho para uma eventual continuação.

Se forem evitados os muitos problemas no roteiro, tal continuação seria até bem vinda. O material tem potencial e poderia se inspirar no trabalho feito em Kong: A Ilha da Caveira (crítica aqui), que, mesmo usando vários clichês, ficou tão simples e divertido quanto qualquer filme de ação deve ser. Se em Kong o espectador pode desligar o cérebro e se divertir, em Tomb Raider: A Origem ele precisa estar à beira de uma morte cerebral.