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Crítica: Sergio

Sergio, EUA, 2020


Apesar de imperfeita, Sergio (2020) consegue ser uma bela homenagem à vida e trajetória do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello

★★★☆☆


A íntima e emotiva narrativa de Sergio (2020) funcionaria bem melhor se fosse mais curta e enxuta, o que resultaria no complemento perfeito para o documentário Sergio (2009), que também foi dirigido por Greg Barker e também está disponível na Netflix. Porém, o filme que chegou na plataforma ontem se arrasta por mais tempo que o ideal e, por isso, perde parte do impacto emocional e dilui quase completamente o impacto político da trama.

Ainda assim, o novo trabalho consegue ser uma bela homenagem à vida e trajetória do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello (Wagner Moura), sendo capaz de humanizar ainda mais essa admirada figura da diplomacia mundial, mostrando não apenas suas qualidades, mas também alguns de seus defeitos. Seu caso de amor com a economista argentina Carolina Larriera (Ana de Armas) se encaixa perfeitamente nessa abordagem, e pode até atrair o tipo de público que não está interessado na cinebiografia de um diplomata.

Apesar da vida profissional do protagonista servir como mero pano de fundo para a história de amor e vida pessoal, Sergio (2020) ainda consegue dar umas interessantes pinceladas no contexto global da narrativa. O filme mostra o diplomata tentando negociar com o criminoso de guerra Ieng Sary (Sahajak Boonthanakit), que era um dos líderes do Khamer Rouge, com o General Xanana Gusmão (Pedro Hossi) e com o presidente indonésio Abdurrahman Wahid (Vithaya Pansringarm) durante o fim da ocupação indonésia no Timor-Leste, que foi onde ele e Carolina se conheceram.

Apesar de mostrar parcialmente a relação entre Sérgio e o diplomata americano Paul Bremer (Bradley Whitford), o filme não vai fundo nos antecedentes e nas ramificações políticas do encontro. Bremer era o administrador do Iraque ocupado pelos EUA e representava os interesses do poderoso escritório do vice-presidente Dick Cheney (e seus “falcões de guerra”), cuja trajetória e maquinações políticas são expostas no filme Vice (crítica aqui). Foram eles que decidiram reabrir a prisão de Abu Ghraib, além de tomarem a controversa decisão de extinguir o exército iraquiano, um dos fatos que mais contribuiu para a espiral de desestabilização do país.

Sergio (2020) mostra também parte do descrédito que a ONU possuía ao redor do mundo, especialmente depois da atuação da organização durante o genocídio na Ruanda (que pode ser visto no filme Hotel Ruanda) e na Guerra da Bósnia (como pode ser vista em Sympathy for the Devil, cuja crítica pode ser lida aqui). Já o filme Segredos Oficiais mostra parte dos esforços dos EUA para intimidar e controlar o Conselho de Segurança da ONU e garantir o apoio para invadir o Iraque.

A pressão dos EUA também foi responsável pela ida de Sérgio ao Iraque, onde um atendado com centenas de quilos de explosivos tiraria a sua vida. Ele havia rejeitado a proposta várias vezes ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Segundo essa matéria da época, o diplomata não queria ir e teria dito:

Vou porque o secretário me pediu e ambos sabemos que a presença da ONU no local é fundamental para se tentar a normalização do país. Sem nossa presença, o distanciamento entre as autoridades americanas e a ONU se aprofundará e os interesses do povo iraquiano serão as maiores vítimas disto.

A nobreza e as paixões de Sérgio são muito bem representadas por Wagner Moura em uma performance calorosa e dedicada. Ele é ajudado pela fantástica química que possui com a atriz Ana de Armas, sintonia que já havia sido aproveitada no filme Wasp Network, apesar daquela obra não estar à altura. Esse é mais um acerto da atriz, que tem se destacado em filmes como Blade Runner 2049 (crítica aqui) e Entre Facas e Segredos (crítica aqui).

Apesar das imperfeições, Sergio (2020) é mais uma garantia de que o nome do diplomata Sérgio Vieira de Mello não será facilmente esquecido pela posterioridade. Mais do nunca, seu estilo e sua abordagem servem como inspiração para o sonho de uma humanidade integrada e pacífica, capaz de superar suas diferenças em prol do bem comum.