Crítica: Pantera Negra

Black Panther, EUA, 2018


Apesar de ser uma fantasia, filme está longe de ser escapista

★★★★☆


Pantera Negra é o primeiro filme do Universo Cinematográfico Marvel (MCU) a ir além dos limites das histórias em quadrinhos. Ao invés de uma montanha-russa de ação e diversão, temos aqui uma curiosa mistura de James Bond com O Rei Leão (!). Isso pode decepcionar os fãs que esperavam um puro “filme pipoca” à la Thor: Ragnarok (crítica aqui), uma vez que o resultado está mais próximo do trágico e reflexivo Logan (crítica aqui). As questões levantadas pela trama refletem não apenas problemas de cunho racial, mas também temas de natureza geopolítica, como imigração e democracia.

O lado James Bond está na trama internacional da narrativa, especialmente quando o protagonista T’Challa (Chadwick Boseman), rei da fictícia nação africana de Wakanda e portador do manto do Pantera Negra, parte em uma missão secreta para capturar o contrabandista sul-africano Ulysses Klaue (Andy Serkis) na Coréia do Sul. Acompanhado da general Okoye (Danai Gurira), da espiã Nakia (Lupita Nyong’o) e com apoio tecnológico de sua irmã Shuri (Letitia Wright), seus planos são complicados pela presença do agente da CIA Everett Ross (Martin Freeman) e do misterioso Erik Stevens/Killmonger (Michael B. Jordan).

Mas o que permite que o filme levante questões mais realistas é a natureza de Wakanda. Para o resto do mundo, esse não passa de mais um pobre e subdesenvolvido país africano. Porém, há um grande segredo: construído sobre uma gigantesca reserva de vibranium (metal fictício e detentor de inúmeras propriedades especiais), o país está desde a antiguidade muito à frente do resto do mundo nos quesitos riqueza e tecnologia. Essa realidade foi mantida longe da comunidade internacional para evitar que os avançados armamentos wakandianos caíssem nas mãos de “senhores da guerra” ao longo da História.

A riqueza e o isolamento permitiram que os wakandianos desenvolvessem uma sociedade pacífica e equilibrada, o que os deixam ainda mais temerosos do mundo exterior. A vontade de ajudar refugiados de guerra ou vítimas de outros tipos de mazelas sociais é superada pelo medo que eles têm de perder o próprio estilo de vida, um dilema que não é estranho a vários países europeus na atualidade.

Há também a questão da responsabilidade histórica de Wakanda, que nada fez para ajudar a população negra escravizada ao longo de vários séculos em várias partes do mundo, e cujos descendentes continuam sendo desproporcionalmente vitimados por problemas sociais. Fica claro que os governos wakandianos poderiam ter usado seu imenso poder militar para acabar com o tráfico e a comercialização de escravos negros, mas escolheram permanecer na segurança de seu isolamento.

Entra então Killmonger, grande vilão de Pantera Negra. Descendente da realeza wakandiana e abandonado ainda criança nos EUA, Erik sente na pele as mazelas que afligem a população negra no restante do mundo, além de ser uma prova viva da hipocrisia dos governantes de Wakanda. Isso o torna um sanguinário radical cujo objetivo é reclamar o trono wakandiano (ao qual ele tem direito) e usar a tecnologia do país para colonizar o restante do mundo da mesma forma que a África foi colonizada pelos europeus. Ele não pretende apenas corrigir erros cometidos ao longo da História, mas também vingar seus antepassados: “O mundo vai recomeçar do zero, e, dessa vez, nós vamos estar no topo.”

Diante disso, é fácil imaginar porque muita gente simpatiza mais com o vilão do que com o herói dessa história. Enquanto o dever do rei T’Challa é manter o status quo, Killmonger passou a vida inteira se preparando para virar a mesa e inverter os papéis entre colonizadores e colonizados; entre oprimidos e opressores. A pura intensidade de seu radicalismo, de sua dedicação e de sua determinação é o suficiente para inspirar, pelo menos, o mínimo de respeito no espectador. Diante de um pedido de trégua de T’Challa, ele responde:

Eu vivi a minha vida inteira esperando por esse momento. Eu treinei, eu menti, eu matei, apenas para chegar aqui. Eu matei na América, no Afeganistão, no Iraque. Eu tirei a vida de meus próprios irmãos e irmãs bem aqui nesse continente! E toda essa morte foi apenas para que eu pudesse matar você!

Mas seus métodos não envolvem apenas violência: seu passado militar lhe dá todas as ferramentas que ele precisa para desestabilizar e mudar o regime de um pequeno país. Mais que isso, ele pretende usar as técnicas de colonização dos próprios colonizadores no restante do mundo, criando uma nova ordem mundial com Wakanda como grande potência hegemônica. Não é à toa que ele consegue o apoio do guerreiro W’Kabi (Daniel Kaluuya), que mais cedo no filme deixa claro que não está disposto a abrir as fronteiras de Wakanda, enquanto não vê problema em montar um exército e sair pelo mundo fazendo uma “limpeza geral.”

De forma nada sútil, fica claro que Killmonger se tornou exatamente o tipo de opressor de quem ele pretende se vingar. Obcecado por diferenças étnicas e disposto a mostrar sua superioridade, suas ideias refletem as ideias de supremacistas brancos no mundo real. Ao combater o ódio e a violência com mais ódio e violência, ele deixa claro está mais interessado em se vingar do racismo do quem em acabar com ele. Nas mãos de Killmonger, o mundo estaria condenado a repetir a História.

Diante da hipocrisia de seus antecessores e do radicalismo de seu inimigo, resta ao rei T’Challa o papel de pacificador. Sem se entregar nem para o revanchismo de Killmonger e nem para o conservadorismo da elite wakandiana, o governante tenta traçar uma solução humana e ponderada para o status geopolítico de sua nação. Um outro filme poderia ser feito sobre T’Challa tentando seguir esse caminho, que é o mais correto e, geralmente, o mais difícil.

Todos os detalhes mencionados nos parágrafos anteriores representam apenas uma pequena fração dos muitos detalhes com os quais os cineastas se preocuparam nesse filme. Além das questões políticas, há outras preocupações em termos de relações raciais, como as tensões nas relações entre africanos e afro-americanos, que não necessariamente experienciam o mesmo tipo de racismo em suas sociedades. Outro elemento bem detalhado é a mitologia de Wakanda, que não fica devendo em nada para a Asgard dos filmes de Thor. Além disso, textos inteiros poderiam ser escritos sobre o design de produção e a trilha sonora de Pantera Negra, que tornam o filme uma instigante experiência para os sentidos.

Há também o destaque para o papel feminino. O círculo mais próximo de T’Challa é quase inteiramente formado por mulheres, e são elas que garantem o dia quando o rei se encontra em sérias dificuldades. Essa é uma bem-vinda novidade em relação a como as mulheres são representadas em filmes de ação protagonizados por homens: vemos aqui um líder que nem as considera, de alguma forma, inferiores e nem se sente ameaçado pelo poder que elas exercem em suas posições. Em momento algum ele tem que salvá-las, muito pelo contrário.

T’Challa é um líder seguro, que não precisa ser o centro das atenções o tempo todo e nem usa a própria voz como lei. Ele não governa sozinho e está sempre consultando aliados e anciões antes de tomar decisões. Apesar de ser um monarca, ele é a antítese de um autocrata. O fato de que um líder dessa qualidade esteja sendo apresentado em um filme focado na representatividade negra apenas mostra o esforço que os envolvidos na produção estão fazendo para que essa história tenha um impacto positivo na vida de qualquer espectador, independente de sua posição nesses vários grupos e temas.

A absurda qualidade do elenco é outro ponto que destaca o cuidado tomado pelos realizadores. Cada atriz e ator parece ter sido milimetricamente escolhido para o papel, desde os desconhecidos interpretes de M’Baku (Winston Duke) e Shuri (que é um dos grandes destaques da produção) até a hipnotizante atuação de Michael B. Jordan como Killmonger. Todos os coadjuvantes parecem entender o peso da história que estão contando.

Pantera Negra parece ser um filme de super-herói por acidente. A história poderia facilmente ser reescrita sem os elementos fantásticos e ainda assim resultaria em um ótimo thriller político, de guerra ou de espionagem. O que torna T’Challa um herói não é o seu traje ou suas super habilidades, mas sim as suas qualidades como líder e sua resiliência diante de incríveis dificuldades. Ao invés de reagir ao momento e recorrer a medidas emotivas e apressadas, ele consegue se manter acima do medo e do desespero. No fim das contas, isso é tudo o que alguém precisa fazer para ser considerado um herói.