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Crítica: Origens Secretas

Orígenes secretos, Espanha, 2020


Origens Secretas consegue fazer uma ótima mistura de filmes de detetive com filmes de super-heróis, apesar de alguns problemas no ato final

★★★☆☆


O que mais impressiona em Origens Secretas é que o filme consegue misturar diversos gêneros e elementos de forma tão equilibrada quanto divertida. Além de ser uma mistura entre filmes de detetive e filmes de super-heróis, a produção também consegue ser uma ótima mistura de comédia e mistério. A trama policial vai se misturando com a trama fantasiosa de forma suave e natural, apesar da fantasia ir um pouco longe demais no ato final.

Parte da diversão é quase exclusiva para os fãs de quadrinhos e cultura pop, já que o aposentado detetive Cosme (Antonio Resines) descobre que os crimes em série que estava investigando se inspiram em origens de super-heróis de HQs. Fica então à cargo do detetive David (Javier Rey), do geek Jorge (Brays Efe) e da inspetora (e cosplayer) Norma (Verónica Echegui) montar o quebra-cabeça e identificar o assassino.

A primeira metade de Origens Secretas é tão boa (e tão claramente inspirada em Seven: Os Sete Crimes Capitais) que o filme poderia facilmente ter tomado um rumo mais sombrio e chocante na segunda parte. Porém, a história segue um rumo mais convencional e revela que o culpado é alguém com quem os personagens já tinham contato ao longo da trama, sendo ele um dos suspeitos mais óbvios para quem já está acostumado com esse tipo de enredo.

O diretor David Galán Galindo, que também é o autor do livro no qual o filme é baseado, também poderia ter ido na direção da desconstrução da ideia dos super-heróis, assim como a clássica graphic novel Watchmen (comentário aqui) do autor Alan Moore (que é a inspiração para o personagem Paco, interpretado por Leonardo Sbaraglia). Ao invés disso, Galindo segue um rumo mais próximo da trilogia de super-heróis do indiano M. Night Shyamalan, formada por Corpo Fechado, Fragmentado (crítica aqui) e Vidro (crítica aqui), tentando dar uma pegada mais realista ao gênero.

No fim, a trama de Origens Secretas lembra especialmente a trama de Corpo Fechado, no qual é revelado que um homem que se vê como um “vilão” está tentando criar um “super-herói”. Com essa abordagem, Galindo deixa claro que esse é um filme feito “por geeks e para geeks“, materializando a ideia de super-heróis e defendendo (de forma um tanto quanto ingênua) a fantasia da existência deles em nossas sociedades. Ao invés de questionar, o diretor tenta reafirmar a ideia de heroísmo.

Isso expõe aquele lado da humanidade que está sempre em busca de um salvador, ou de alguém que a salve de si própria e não a obrigue a assumir a responsabilidade por suas próprias decisões. Um super-herói é, acima de tudo, uma figura idealizada que substitui a necessidade das pessoas serem mais inteligentes e mais conscientes dos seus atos e das consequências deles. Uma vez que se veem como incapazes de controlar o próprio comportamento, as pessoas esperam que figuras heroicas consertem o mundo enquanto elas se preocupam apenas com suas questões pessoais.

O que elas não entendem é que pessoas com condutas exemplares e heroicas podem até servir como inspiração para o resto da humanidade, mas não podem consertar o mundo sozinhas. O Estado de Direito pode não ser perfeito, mas ele está em contínuo processo de melhoria e ainda é a melhor forma de garantir que pessoas inocentes não sejam condenadas erroneamente. Se um “super-herói” (ou, simplesmente, um justiceiro) pune uma pessoa inocente (algo comum nesse tipo de atuação), não há nada o que ninguém possa fazer para corrigir essa injustiça.

Origens Secretas se garante tanto como suspense quanto como comédia. Apesar do final ser questionável, a ação oferece um ótimo entretenimento casual. O filme deixa um gancho para eventuais continuações, mas elas teriam que dar um passo atrás e voltarem se ancorar no mundo real se quiserem manter o mesmo nível de qualidade desse capítulo introdutório.