Crítica: O Homem Duplicado

Enemy, Canadá, 2013


Uma história difícil de explicar nesse ótimo thriller psicológico

★★★★☆


“O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?). Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra de Saramago (também intitulada “O Homem Duplicado”) é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS.

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são a mesma pessoa. A questão que fica é: em que nível de realidade a história ocorre? Qual o contexto que levou aquele homem àquele nível de confusão mental? A partir daí, a hipótese mais simples e direta é a de que ele possui um distúrbio de dissociação de identidade, acreditando ser duas pessoas quando na verdade é apenas uma. Nas poucas cenas em que eles estão juntos, não há mais ninguém com eles, o que indica que existe apenas um homem ali quando os dois estão conversando. Muitos detalhes corroboram essa possibilidade, como a cena na qual os dois estão falando pelo telefone e o professor se agita e acaba indo com o telefone para o banheiro. O solavanco que ele dá nesse momento indica que o telefone provavelmente foi desconectado da linha, mas a conversa continua. O momento no qual Helen, a esposa de Anthony, visita Adam na universidade também brinca com isso: ela liga para Anthony com o intuito de confirmar que os dois não são a mesma pessoa, mas Anthony só atende o telefone no exato momento em que Adam sai do campo de visão dela. Ela entende que naquele instante não haveria tempo hábil para Adam atender o telefone e voltar a ser Anthony. Será? O que dificulta a aceitação dessa hipótese é a cena final, que supostamente mostra Anthony e Adam em locais diferentes e com pessoas diferentes ao mesmo tempo. É claro que isso pode ser apenas um truque de montagem: o acidente com Anthony pode ter ocorrido no dia anterior, mas ele sobrevive ileso e volta para Helen como Adam. Inclusive, essa seria uma boa explicação para a tentativa de Adam roubar a esposa de seu duplo: uma vez que Mary provavelmente morreu no acidente, Anthony não tem mais sua aventura ou qualquer razão de ser, e é através de Adam que ele vai conseguir a aventura que deseja. Nessa hipótese, a aranha representa o predador que ele tenta evitar: a vida chata e normal com sua esposa grávida. Ele se sente preso naquela teia de normalidade e precisa escapar, como quando vai no show de sexo ao vivo. Nos instantes finais, ele havia se aceitado como Adam e resolveu ficar com Helen, mas a tentação do novo convite para o show de sexo o faz ver Helen como a tarântula, e mais uma vez ele tentará escapar daquele predador, daquela teia, daquela realidade.

E não é por acidente que o parágrafo anterior só faz sentido se você já viu o filme. Se não viu, só lamento.

Mas essa foi a última explicação na qual pensei. Ela parte do pressuposto de que a história ocorreu no mundo real, o que não levei em conta nas minhas primeiras explicações. Nas primeiras, tudo isso ocorre dentro da cabeça da personagem. A mais simples é a de que toda a história não é nada mais do que uma representação dos conflitos internos dele, um professor casado que tem uma amante e sonha em ser ator. Mas aqui fica difícil encaixar a simbologia da aranha. Talvez eu precise pensar mais sobre isso. Uma variação sobre essa hipótese é a de que a dissociação não ocorre sobre dois lados de uma mesma personalidade, mas sim sobre duas versões do mesmo homem, separadas por um intervalo de tempo. Linearmente, a história seria: Adam/Anthony é casado com Helen e eles estão prestes a ter um filho, mas por algum motivo eles se separam e/ou ela morre. Um tempo depois, ele passa a morar sozinho e namorar com Mary. Mas há sinais que indicam que ele não superou completamente a perda de Helen, e isso é algo que o assombra. Pensei nessa variação depois que vi que as duas versões dele possuem uma mesma foto: com Adam, a foto está rasgada ao meio e não sabemos quem era a pessoa que estava com ele, enquanto com Anthony, vimos que era uma foto dele com Helen. Outro indício é na cena final quando Mary se apavora porque vê a marca da aliança no dedo dele. Isso pode indicar que um dos sintomas de sua não superação da perda de Helen seja que ele voltou a usar sua aliança de casamento, o que deixa Mary perturbada. Ocorre então o acidente de carro: talvez em coma, talvez entre a vida e a morte, talvez em seu último suspiro, as memórias desse homem se embaralham, enquanto esses dois lados de sua personalidade de dissociam, dando origem à história de Adam (o homem que ele se tornou depois da perda de Helen) contra Anthony (o homem que poderia ter sido feliz ao lado de Helen).

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?