Crítica: O Estranho Que Nós Amamos

The Beguiled, EUA, 2017


Apesar de problemático, filme causa o efeito esperado

★★★☆☆


O elemento mais estranho em O Estranho Que Nós Amamos é a errática direção de Sofia Coppola, que parece não ter muita paciência para apreciar a “beleza” dos momentos mais cruéis de sua trama. Em determinado ponto, a narrativa passa a apresentar desenvolvimentos tão abruptos e inexplicáveis que fica difícil acompanhar os buracos que vão sendo deixados no roteiro. Ainda assim, graças à eficiente preparação feita nos primeiros atos e às ótimas atuações do fantástico elenco, os golpes finais não perdem muito do impacto e nem decepcionam o espectador.

beguiled1Quando a pequena Amy (Oona Laurence) traz um soldado da União para seu internato feminino no sul dos EUA, a rotina das poucas garotas que ficaram na escola durante a guerra é seriamente perturbada. O cabo John MacBurney (Colin Farrell) desertou da batalha após ter sua perna ferida, e passa a contar com a hospitalidade da senhorita Martha Farnsworth (Nicole Kidman), professora e proprietária da escola, para sobreviver no território inimigo. Em pouco tempo, a atenção do soldado passa a ser disputada por todas as moradoras da casa, seja pelos motivos mais puros e inocentes (as crianças o tratam como um animal ferido que precisa ser cuidado) ou seja pelos mais lascivos e apaixonados.

A diretora consegue captar com maestria a forma como, mesmo antes de recobrar a consciência, o cabo passa a despertar o desejo adormecido em Farnsworth. Posteriormente, os olhos do soldado se voltam para a beleza da professora Edwina Morrow (Kirsten Dunst) e para a ousadia da adolescente Alicia (Elle Fanning). Ele rapidamente fica bem confortável com aquela situação, chegando a se oferecer para ficar como empregado na casa. Entretanto, os acontecimentos de uma fatídica noite terminam de virar a rotina da casa de cabeça para baixo e várias decisões sem volta são tomadas (algumas no melhor estilo Louca Obsessão).

E é aqui que a narrativa começa a desandar. O roteiro passa então a atirar os acontecimentos numa velocidade que não permite que o clima de tensão realmente cresça em tela. Sem dar tempo para o espectador refletir sobre o que está acontecendo, a edição não apenas faz transições abruptas como também faz uso de cenas relâmpago que duram menos de 30 segundos e mostram apenas trechos de diálogos com o mínimo de contextualização. O cúmulo disso pode ser visto em dois ou três momentos nos quais o personagem de Colin Farrell aparece do nada de forma tão inexplicável quanto conveniente.

A pressa também prejudica as mudanças de relacionamento entre os personagens, não permitindo que o espectador aprecie cada nova dinâmica apresentada. Em um filme que busca explorar a humanidade deles, a forma rápida e superficial como as novas relações de poder são apresentadas acaba anulando esse esforço.

A impressão que se tem é de que a narrativa está “ansiosa” pelo clímax, durante o qual o ritmo volta ao normal e todos os envolvidos (inclusive o espectador) podem desfrutar de um “ótimo” jantar. A pressa mostrada durante o início do ato final tira um pouco do peso dessa cena, mas, apesar disso, ela funciona bem o suficiente. Talvez a diretora tenha tentado aumentar a velocidade da narrativa para tirar o filme do modo comédia dramática e transformá-lo em um verdadeiro thriller, mas, se for esse o caso, ela acabou acelerando demais.

Um filme que está prestes a estrear no Brasil e cuja narrativa pode ser usada como um contraponto a de O Estranho Que Nós Amamos é o britânico Lady Macbeth (trailer aqui). Apesar de passar por diversas fases (o frio casamento da protagonista, seu tórrido caso extra-conjugal e a onda de violência que ela desencadeia) o filme mantém sempre o mesmo ritmo e a mesma (e anti-climática) placidez. O estreante diretor William Oldroyd mostra com a mesma calma tanto as cenas mais fúteis quanto as mais cruéis, passando, inclusive, pelas mais eróticas. Mesmo com toda essa placidez, o diretor parece desafiar o espectador a continuar olhando para a tela e presenciar a crueldade ou a situação embaraçosa que, por mais que torçamos contra, está prestes a ocorrer.

Outros paralelos podem ser traçados entre os dois filmes, como o estudo que fazem do desejo feminino nos moralistas e restringentes ambientes rurais do passado (e que é feito de forma mais intrigante em Therese D.); ou o ressentimento e a violência desencadeados quando esse desejo é negado ou retirado à força. Mas o fato é que Lady Macbeth, apesar de não ser absolutamente superior, tem mais sucesso em atingir o resultado a que se propõe, e o faz justamente por se manter fiel a sua proposta inicial. De qualquer forma, enquanto os dois filmes possuem seus lados hitchcockianos, ambos poderiam se beneficiar da construção de clima e da explosão de violência como vistos no exemplar O Convite (comentário aqui).

Com sólidas atuações de Colin Farrell e Nicole Kidman, O Estranho Que Nós Amamos não chega a ser um filme memorável por si só, mas é uma válida adição ao rol de filmes citados anteriormente, seja pelo suspense, seja por ser centrado no universo feminino. Apesar de não passar da superfície, as personagens tem profundidade o suficiente para tornar a trama crível e funcionar, no mínimo, como entretenimento.