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Crítica: O Charlatão

Charlatan, República Tcheca/Irlanda/Polônia/Eslováquia, 2020


Cinebiografia apresenta um retrato profundo e complexo de uma figura altamente controversa

★★★☆☆


Apesar do título, a cinebiografia O Charlatão está muito mais interessada em Jan Mikolášek (Ivan Trojan) como ser humano do que como curandeiro. A diretora Agnieszka Holland tenta traçar um retrato relativamente favorável dessa complexa figura, mas os sinais de uma personalidade obsessiva, egocêntrica e manipuladora estão todos lá. Enquanto a lógica falha do próprio Mikolášek tenta apresentá-lo como um benfeitor, em alguns momentos ele lembra muito mais o líder de seita protagonista de O Mestre.

Sua história é mais relevante quando se mistura com a História da Europa no Século 20. Devido às suas práticas pseudomedicinais ele foi perseguido tanto pelo regime nazista quanto pelo regime comunista da antiga Tchecoslováquia, sendo que é no julgamento promovido por esse último que o filme ancora sua narrativa. Como também tratava figuras de alto escalão, os episódios de perseguição foram intercalados por períodos de estabilidade graças a seus influentes contatos nesses governos. E ele fez tudo isso enquanto também escondia sua homossexualidade, que era criminalizada no país.

Nesse meio tempo, o curandeiro acumulou fortuna e muitos admiradores. Sua técnica consistia em fazer específicos e detalhados diagnósticos ao apenas olhar para o paciente ou analisar contra a luz o aspecto de sua urina, e depois receitar chás ou emplastros para tratar o problema identificado. A técnica da urina o tornava um típico “profeta do mijo” (em inglês, piss-prophet), tipo de curandeiro mais comum em tempos medievais.

O Charlatão termina com uma frase do próprio Mikolášek, que diz: “Se prolonguei a vida de uma a cada cem pessoas por ano, então terei salvo 40.000 anos de vida para essa terra maravilhosa.” O problema dessa lógica está nas outras noventa e nove vidas que não foram prolongadas, e que podem até ter sido encurtadas se as pessoas não procuraram um verdadeiro tratamento médico. É perfeitamente possível que ele tenha ajudado muita gente, especialmente ao lhes prover conforto psicológico. Mas também é perfeitamente possível que seus diagnósticos e caros tratamentos, que muitas vezes eram feitos com base em amostras de urina recebidas pelo correio, tenham custado as vidas de muitas delas.

Uma das coisas que ficam claras na série de documentários A Indústria da Cura é que mesmo tratamentos alternativos inofensivos podem ser aplicados de forma prejudicial a partir do momento que alguém começa a ganhar muito dinheiro com eles.

Apesar dos negócios de Mikolášek serem questionáveis, a repressão autoritária da qual ele foi vítima também o era. Talvez o pano de fundo político de sua jornada tenha sido o grande atrativo para a diretora, cujo filme anterior foi Mr. Jones (crítica aqui), cinebiografia de um jornalista britânico que teve que lidar com a União Soviética de Stalin. E talvez Holland (ou o roteirista Marek Epstein) tenha amenizado os defeitos do protagonista justamente para poder realçar a injustiça da qual ele foi vítima, mas isso apenas enfraquece o impacto das mensagens que ela tenta passar.

Tão convencional quanto Mr. Jones, O Charlatão também consegue se manter interessante graças ao apelo natural da história sendo contada e da figura em seu centro. Com ótimas performances de Ivan Trojan e Juraj Loj, que interpreta o assistente de Mikolášek, o filme é muito bem-sucedido em fazer o espectador esquecer o charlatanismo do protagonista por alguns instantes e enxergá-lo apenas como um homem complexo, intenso e determinado, ainda que os objetos de sua determinação sejam muitas vezes questionáveis.

* Assistido online na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo