Crítica: Missão Impossível – Efeito Fallout

Mission: Impossible – Fallout, EUA, 2018


Pura energia cinética em meio a muitas referências ao passado da franquia

★★★★☆


Na época de seu lançamento, Missão Impossível: Nação Secreta (comentário aqui) já era um dos melhores filmes de ação da década, o que deixou um problema nas mãos de Tom Cruise e companhia: como superá-lo na continuação? A resposta vem com esse fantástico Missão Impossível: Efeito Fallout, um exagerado e divertido exercício cinematográfico que eleva o cinema de ação a um nível artístico, assim como fez seu antecessor. Esse é um dos melhores filmes da franquia e ele já pode ser colocado ao lado novos “clássicos” do gênero, como Mad Max: Estrada da Fúria, No Limite do Amanhã (crítica aqui) e Operação Invasão 2 (crítica aqui).

Algo notável sobre esse novo filme é que a narrativa abandona completamente quaisquer resquícios de seriedade que a franquia ainda tinha e transforma Ethan Hunt (Tom Cruise) em um quase super-herói. Além de ser tratado como um “guardião da humanidade”, sendo o único ser humano capaz de impedir que o “super-vilão” Solomon Lane (Sean Harris) use armas nucleares para devastar parte do planeta, ele sobrevive a lutas, perseguições e quedas que matariam ou deixariam sequelas inversíveis em qualquer pessoa normal. Nessa era de ouro das adaptações cinematográficas de HQs, isso está longe de ser um problema e contribui significativamente para a diversão. Esse aspecto está presente inclusive na personalidade de Hunt, que se mostra incapaz de sacrificar membros de sua equipe em nome de um “bem maior”.

Porém, enquanto a ação em Efeito Fallout é inegavelmente superior, seu roteiro é mais fraco que o de Nação Secreta, especialmente no tratamento do ato final: se em Nação Secreta Hunt precisa superar Lane em um intrincado jogo de manipulação, aqui o herói vai improvisando loucamente de uma situação para outra, sem nunca saber exatamente como vai alcançar o objetivo ao que se propõe e sempre contando com a sorte. O ato final é muito mais parecido com o desesperador final de Missão Impossível: Protocolo Fantasma do que com o elegante e altamente satisfatório final de Nação Secreta.

O roteiro de Efeito Fallout também é menos original, e isso parece ter sido de propósito: sua narrativa reaproveita e referencia vários personagens e situações do passado da franquia. Dessa forma, o que se perde em originalidade é compensado em nostalgia. O espectador mais atento, ou que assistiu aos filmes anteriores recentemente, vai perceber essas referências (em sua maioria, visuais) como se fossem easter eggs deixados pelo diretor e roteirista Christopher McQuarrie. Vários desses acenos referenciam diretamente o primeiro filme, Missão: Impossível, ou mesmo à serie televisiva na qual a franquia é baseada, como na cena em que a mensagem se auto-destrói ou quando eles montam um cenário para extrair uma informação de uma fonte.

A cena na qual Hunt parte para uma escalada à mão livre sobre um rochedo lembra ao espectador que o personagem já exibiu essas habilidades antes, mais exatamente na abertura de Missão: Impossível 2. Já a revelação de quem realmente é o misterioso “John Lark” ocorre de forma semelhante ao desmascaramento de Claire (Emmanuelle Béart) no final do primeiro filme. É também em Missão: Impossível que há uma memorável cena de ação com um helicóptero, que é facilmente superada pelas loucuras que Cruise faz em Efeito Fallout: o ator se tornou, em tempo recorde, um experiente piloto para poder ele mesmo realizar as cenas. Já o momento no qual ele corre desesperadamente sobre os prédios em Londres não apenas é uma repaginação do que ocorre em Missão: Impossível 3 como também custou um tornozelo quebrado ao ator.

Mas talvez a melhor de todas as referências seja a introdução dos irmãos e contrabandistas de armas chamados apenas de Viúva Branca (Vanessa Kirby) e Zola (Frederick Schmidt). Em sua introdução, a Viúva Branca está dando um discurso sobre sua mãe, a quem chama apenas de Max, e sua apreciação por “paradoxos”. Acontece que Max é a contrabandista de armas a quem Hunt recorre no primeiro filme para ajudá-lo a identificar um elusivo traidor. Inesquecivelmente interpretada por Vanessa Redgrave, Max considera Hunt um “paradoxo”, já que ele não é o traidor que ela esperava, apesar de ter entrado em contato usando os meios daquele. Kirby é muito bem sucedida em emular os trejeitos e o falar desdenhoso da Max de Redgrave, o que, além de tornar a sútil referência ainda mais gratificante, faz com ela se destaque em um filme repleto de estrelas.

As outras grandes adições ao elenco foram as de Henry Cavill (e seu famoso e polêmico bigode) como o agente August Walker e de Angela Bassett como a chefe da CIA Erika Sloan. Enquanto Cavill está feroz e intimidador como o brutal agente Walker, Bassett parece se divertir com a exagerada e autoritária Sloan, que não se deixa impressionar por ninguém. Michelle Monaghan volta como Julia, a esposa de Hunt introduzida no terceiro filme e de quem ele teve que se afastar para mantê-la em segurança. Infelizmente, a personagem traz consigo muito do sentimentalismo barato que contribuiu para Missão: Impossível 3 se tornar um dos elos fracos da franquia. Fica a impressão de que a personagem só está em Efeito Fallout para permitir a transição dela para Ilsa Faust (Rebecca Ferguson) como interesse romântico do protagonista. Se for o caso, isso é lamentável, pois a atual dinâmica entre Faust e Hunt já é uma das melhores do cinema de ação.

E a ação é, obviamente, o grande destaque da produção. O roteiro e os personagens de Missão Impossível: Efeito Fallout servem apenas como veículo para os realizadores entregarem sequências intensas e alucinantes. A impressionante perseguição de helicópteros no ato final levou anos de preparação. Em outras palavras, antes de existir a história a ser contada nesse sexto filme da franquia, já havia a ideia dessa cena. Além dela, destacam-se a longa perseguição nas ruas de Paris e a brutal briga no banheiro do Grand Palais. Por falar nisso, o trabalho de coordenação de lutas está fantástico e se destaca também no embate entre Faust e Lane, refletindo o alto nível de treinamento desses personagens.

Mas essa série de filmes vem se destacando justamente por oferecer mais do que “ação sem cérebro”. Depois do interessante suspense de ação Missão: Impossível estabelecer a fórmula, e dos tropeços em Missão: Impossível 2 e Missão: Impossível 3, a franquia ganhou um novo fôlego com a narrativa ágil e inteligente de Missão Impossível: Protocolo Fantasma e atingiu seu ponto mais alto com os “jogos de espelhos” de Missão Impossível: Nação Secreta. Missão Impossível: Efeito Fallout não deixa a peteca cair e mantém a série nesse elevado patamar de excelência, exigindo a completa atenção do espectador mesmo entre as sequências de ação. Ao mesmo tempo em que pode ser considerado um blockbuster à moda antiga, Efeito Fallout também aponta para os rumos que filmes como esse podem seguir no futuro.