Crítica: Mãe!

mother!, EUA, 2017


Filme preza menos pela lógica e mais pela intensidade

★★★★☆


Em Mãe!, o diretor Darren Aronofsky conduz o espectador por um pesadelo em forma de filme desenvolvido para confundir e chocar. Repleto de simbologia religiosa, a obra usa uma inicialmente simples e posteriormente intensa alegoria da História da humanidade do ponto de vista bíblico, indo de Adão e Eva até um inevitável desfecho. Com uma narrativa que parte da placidez e passa por momentos visualmente chocantes e/ou psicologicamente perturbadores, essa divisiva obra está longe de ser uma unanimidade tanto dentre o público quanto dentre a crítica especializada.

Inicialmente, e sem muita explicação, o espectador é lançado em um dia normal na vida do casal sem nomes creditado apenas como Mãe (Jennifer Lawrence) e Ele (Javier Bardem). Porém, no fim do dia eles são surpreendidos pela chegada do Homem (Ed Harris), e no dia seguinte pela chegada de sua esposa, a Mulher (Michelle Pfeiffer). A partir daí, uma série de acontecimentos cada vez mais insólitos vai surpreendendo a Mãe, enquanto seu esposo segue abraçando todas as novidades como bem-vindas e inspiradoras quebras na rotina, já que Ele é um escritor que está passando por um bloqueio. Tudo isso é mostrado do ponto de vista da Mãe, com uma câmera que só sai do close em seu rosto para mostrar a visão que ela tem do frenético mundo ao seu redor.

E ponto de vista é a questão central aqui. O filme pode ser explicado como um esforço para mostrar o papel de coadjuvante reservado para as mulheres ao longo da História. Mais que isso, ele tenta reproduzir essa experiência ao conduzir a narrativa do ponto de vista da Mãe, fazendo ela (e o espectador) passar por toda a dor e frustração que é ser ignorada durante decisões que afetam sua vida enquanto é obrigada a lidar sozinha com as consequências delas. A Mãe que protagoniza o filme representa toda mulher que é ignorada por seus pares ou pela sociedade; que é objetificada, seja sexualmente ou como musa inspiradora; que é pressionada a ter filhos; que tem que limpar a bagunça que eles deixam depois de se divertirem; que sofre ao perdê-los, seja para a morte ou para a vida adulta; que sofre nas guerras iniciadas pelos homens; que tem que lidar com homens invasivos que reagem violentamente quando são rejeitados. Ela é a Virgem Maria, Maria Madalena, Joana D’Arc, dentre muitas outras.

O amor que Ele sente por ela representa o amor dos homens pelas mulheres, mostrado alegoricamente como o narcisístico amor de Deus pela humanidade, que, segundo a mitologia judaico-cristã, foi criada apenas para amá-Lo. Esse amor é intenso, porém inconstante. Em um instante, Ele só tem olhos pra ela e ela parece ser o seu mundo, apenas para no próximo abandoná-la confusa e sozinha enquanto dá atenção aos seus novos e fanáticos adoradores. Assim como o Deus que criou toda uma raça para ser amado por ela, Ele parece consumido pela necessidade de ser amado e venerado pelos seus fãs. Isso leva a Mãe a corretamente concluir: “Você não me ama. Você apenas ama o meu amor por você.” E ela entende que seu amor jamais será suficiente para ele.

Mas essa é apenas uma das explicações possíveis. Como diz esse artigo da Polygon, “Mãe! é um espelho, não uma lição”, no sentido de que cada pessoa pode ter uma interpretação diferente da tempestade de imagens e sons apresentada pelo filme. Em outras palavras, sua interpretação de Mãe! pode revelar muito mais sobre você do que sobre o conteúdo sendo interpretado. Isso o coloca na mesma categoria de obras enigmáticas como Animais Noturnos (crítica aqui) e O Homem Duplicado (crítica aqui). O diretor até tira um pouco da “magia” ao expor sua própria explicação nessa entrevista que deu enquanto divulgava o filme no Brasil.

Mãe! também pode ser um mea culpa, ou pelo menos um esforço de Aronofsky em reconhecer o calvário que é ser mulher seja no passado ou no mundo atual. O diretor escreveu o filme em apenas cinco dias, depois de não conseguir evoluir com um “filme infantil” que estava planejando, o que me leva a imaginar (e isso é pura especulação) que sua dificuldade em escrever algum dos papéis femininos da outra obra o levou a refletir intensamente sobre os muitos aspectos da experiência feminina que ele tenta descarregar em Mãe!

Corroborando essa impressão, há também a semelhança entre o diretor e o personagem Ele, uma vez que os dois estavam passando por algum tipo de bloqueio. Será que ele também ama suas parceiras na medida em que elas o inspiram em sua arte? Em alguns dos momentos mais intensos da projeção, Ele faz referência a personagem de Lawrence apenas como “A Inspiração”, o que não diminui em nada o desespero e alienação da protagonista. Perguntado sobre isso, o diretor diz que há muito dele em todos seus filmes e que nesse ele também se parece mais com a personagem principal. Detalhe: Aronofsky e Lawrence deram início a um relacionamento amoroso durante as filmagens de Mãe!, o que provavelmente não tem nada a ver com o filme e vai ser melhor se ninguém tentar “interpretar”.

Independente de todas essas tentativas de explicação ou interpretação, ou mesmo de quaisquer mensagens que o filme tenha para passar, Mãe! é acima de tudo uma intensa e visceral experiência cinematográfica, comparável apenas a Dunkirk (crítica aqui) em 2017. O filme funciona na medida em que consegue colocar o espectador na pele da protagonista, transportando-nos para um mundo de confusão, medo, violência e caos que desafia a audiência a continuar olhando. E quem continuar, vai presenciar cenas difíceis de esquecer.