Crítica: John Wick 3 – Parabellum

John Wick: Chapter 3 – Parabellum, EUA, 2019


John Wick volta para mais um balé de lutas e tiroteios – e, até agora, ele não decepciona

★★★★☆


John Wick 3: Parabellum (referência ao provérbio latino Si vis pacem, para bellum) traz um John Wick (Keanu Reeves) menos focado e mais letal. Com a ação começando meros minutos após a conclusão de John Wick: Um Novo Dia Para Matar (crítica aqui), o anti-herói continua com dezenas de assassinos em seu encalço e dá sinais de cansaço. O mesmo não pode ser dito do roteiro e da montagem desse novo capítulo, que evitam alguns pequenos problemas do filme anterior e jamais deixam a ação ficar repetitiva.

A narrativa mais uma vez expande o universo dessa franquia, a ponto de agora incluir algumas cenas de ação sem a participação do protagonista. A responsável por isso é a Juíza/Adjudicadora (Asia Kate Dillon), uma enviada da Alta Cúpula (ou Mesa Diretora, em outras traduções) determinada a punir qualquer um que tenha ajudado o “excomungado” Wick. Ela é a responsável por garantir que as consequências alcancem aqueles que violem as regras desse submundo fantasioso (que parece inalcançável para as forças policiais).

Vale lembrar que o filme se reconhece como pura fantasia e espera que a violência extrema sendo representada sirva como entretenimento (o que é uma interessante observação sobre a natureza humana), e não como inspiração. Ele conta com a maturidade do espectador no sentido de reconhecer a diferença entre a fantasia e a realidade, e que as consequências da violência no nosso mundo são diferentes das consequências nesse mundo fictício. Dois filmes que tratam desse assunto de forma mais realista e reflexiva são Operação Fronteira (crítica aqui) e Sicário: Dia do Soldado (crítica aqui).

O roteiro de John Wick 3: Parabellum tem a estrutura ideal para um jogo de vídeo game: Wick está sempre tentando sobreviver ao momento atual enquanto corre em busca de um objetivo específico. Isso mantém a trama simples enquanto cria as oportunidades para as cada vez mais elaboradas e brutais cenas de ação, que são a atração principal. O trabalho dos dublês e coreógrafos de lutas mais uma vez se sobressai e dá razão para aqueles que defendem o reconhecimento desses profissionais nas principais premiações da indústria.

Não se trata apenas do virtuosismo na execução dessas cenas, mas também da criatividade e da ousadia dos realizadores. É aí que a experiência do diretor Chad Stahelski faz a diferença: ele atua desde 1993 como dublê e coordenador de ação, sendo que seus únicos trabalhos como diretor são esses três filmes da franquia John Wick. Além da experiência e das habilidades, ele deve possuir uma grande rede de contatos, o que lhe dá acesso aos melhores profissionais e ao que há de mais novo nesse meio.

Para interpretar Sofia, uma ex-assassina que muito a contragosto ajuda Wick, a atriz Halle Berry passou por aproximadamente sete meses de treinamento, tanto em tiro táctico (ela pode ser vista em ação aqui) quanto em combate corporal (vídeo aqui). Além disso, ela teve que se tornar uma das treinadoras de dois cães da raça Pastor Belga Malinois para também poder comandá-los durante as violentas e surpreendentes cenas de ação envolvendo os animais (na sessão que fui, foi possível ouvir a audiência voltar a respirar normalmente depois dessa sequência de ação). Eles foram selecionados e treinados especificamente para serem usados na produção.

E essas não são as únicas participações especiais. A primeira cena de ação é com o “gigante” Ernest, interpretado pelo jogador de basquetebol Boban Marjanović. O sérvio de 2,22m de altura atua na NBA e sabe muito bem como usar a sua altura durante os jogos.

O filme também traz Cecep Arif Rahman e Yayan Ruhian, dois praticantes da arte marcial indonésia Pencak Silat (ou Silat indonésio). Respeitados dentro e fora das telas, eles são mais conhecidos por suas participações nos filmes Operação Invasão e Operação Invasão 2 (crítica aqui), nos quais trabalharam com estrelas de ação como Iko Uwais, Joe Taslim e Julie Estelle (que podem ser vistos no mediano Headshot e no ótimo A Noite Nos Persegue).

Rahman e Ruhian interpretam os melhores alunos do assassino Zero, “chefão” interpretado por Mark Dacascos, outra lenda das artes marciais. O ator mostrou toda a sua flexibilidade e agilidade no ótimo Drive: Tensão Máxima, de 1997, que é um dos melhores filmes de luta já feitos nos EUA e que possui algumas inesquecíveis cenas de ação. Ele também foi destaque no francês O Pacto dos Lobos e mostrou toda a sua ginga no fraco Esporte Sangrento, além de ter estrelado a única temporada da série O Corvo.

Essas são participações tão “pesadas” que os roteiristas tiveram que reconhecê-las: dessa vez, em vários momentos Wick é praticamente derrotado por seus algozes, e só sobrevive devido a seu status de lenda viva. Zero e seus dois alunos chegam a se apresentarem como fãs do protagonista, o que lhes leva a dar algumas segundas chances ao anti-herói. Em outras palavras, quando suas habilidades não são suficientes ou o cansaço finalmente o alcança, é sua absurda (e merecida) reputação que o salva.

Depois de duas horas de ação envolvendo facas, cães, cavalos, motos (em uma cena claramente inspirada nessa perseguição de A Vilã) e armas, muitas armas, John Wick 3: Parabellum termina com uma traição e com a volta de um aliado, o que prepara o terreno para um quarto capítulo. Resta saber se a fórmula vai finalmente se desgastar ou se mais uma vez veremos o cinema de ação ser elevado ao estado de uma refinada arte.