Crítica: Jack Reacher – Sem Retorno

Jack Reacher: Never Go Back, EUA, 2016


Tom Cruise erra a mão e exagera no drama e nos clichês

★★☆☆☆


Em Jack Reacher – Sem Retorno, o protagonista (mais um vez interpretado por Tom Cruise interpretando ele mesmo) se une à major Turner (Cobie Smulders) para desmascarar uma conspiração e provar a inocência dos dois. No caminho, junta-se a eles a adolescente Samantha (Danika Yarosh), que o exército acredita ser filha de Reacher e que ele tem que salvar dos vilões. O que se segue então é uma série de clichês em uma trama que já foi vista em inúmeros outros filmes de ação, apesar das cenas de ação em si continuarem boas e razoavelmente divertidas.

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O principal problema dessa continuação está na personagem Samantha e toda sua trama, que são completamente desnecessárias. A personagem é irritantemente genérica e previsível, fazendo tudo o que o típico “adolescente chato e falador porém sensível e inteligente” tem que fazer nesse tipo de produção. Em alguns momentos, o filme vira um drama adolescente ruim que parece não ter fim. Entende-se que o motivo da inserção dessa trama (que provavelmente está no livro no qual o filme é baseado mas que não precisava estar na adaptação cinematográfica) é dar a Reacher um fundo emocional, o que não funciona e não é o que o espectador espera quando vai assistir a um filme de ação sobre um caricato ex-militar comicamente convencido e inacreditavelmente imbatível.

Se o filme fosse apenas 90 minutos de Reacher e a major Turner dando porrada e trocando tiros com os (também caricatos) vilões já teríamos um bom, divertido e genérico filme de ação. Porém, com seus quase 120 minutos de ação no meio de drama ruim, acabamos ficando com um filme genérico e difícil de terminar de assistir. A relação entre Reacher e Turner também é problemática, partindo de uma TSNR (Tensão Sexual Não Resolvida) inicialmente cool mas que rapidamente descamba para o embaraçoso e acaba no puramente piegas. Inclusive, os últimos 10 minutos da projeção parecem pertencer a algum outro filme, com longos e profundos olhares durante despedidas “emocionantes” que não emocionam ninguém. Nesses e em outros momentos, o filme parece se levar mais a sério do que deveria.

Cobie Smulders plays Turner in Jack Reacher: Never Go Back from Paramount Pictures and Skydance Productions

É estranho Tom Cruise, que também produz o filme, errar a mão dessa forma no que pode ser considerado o auge da sua carreira no cinema de ação, depois de entregar pequenas joias como Missão Impossível – Protocolo Fantasma e No Limite do Amanhã. O primeiro Jack Reacher já era um filme de ação genérico e exagerado, mas que pelo menos tinha um mistério mais instigante e ótimas cenas de ação (com destaque para a divertidíssima e original briga no banheiro). No ano passado, ele lançou um dos melhores filmes do ano e da sua carreira, o alucinante ainda que inteligente Missão Impossível – Nação Secreta. É verdade que ele já havia dado uma escorregada com o questionável Oblivion, mas aquele parecia ser uma rara exceção. Parece que não são tão raras assim.

Em suma, há um bom filme de ação escondido em Jack Reacher – Sem Retorno, mas ele está cercado por um drama que nunca decola e não tem lugar nesse filme. Isso não deve estragar a experiência para espectadores menos exigentes, mas pode ser bem irritante pra quem já assistiu essa mesma trama em dezenas de outras produções.