Crítica: Jack Irish – Blind Faith

Jack Irish, 1ª Temporada (Blind Faith), Austrália, 2016


Série é superior aos filmes lançados anteriormente

★★★★☆


Depois de três filmes para a TV, a rede australiana ABC lançou no início de 2016 uma série baseada nas aventuras de Jack Irish. Com seis episódios e intitulada Jack Irish – Blind Faith, essa 1ª temporada (que alguns estão considerando como a 3ª, já que dois dos filmes foram lançados em um intervalo de uma semana em 2012, enquanto o outro estreou em 2014) mantêm todos os elementos de neo-noir da franquia e a enriquecem com ainda mais humor e profundidade nos personagens. Pra quem não tem a menor ideia do que estou falando, segue um trecho da curta crítica de Jack Irish – Dead Point que escrevi em 2014 (e que vale a pena ler inteira antes de continuar essa):

Baseado na série de livros do autor australiano Peter Temple, Jack Irish (Guy Pearce) é um coletor de dívidas e, ocasionalmente, detetive particular. Ex-advogado criminal, sua vida caiu em decadência após um cliente insatisfeito assassinar sua esposa (de Jack) e se matar. Entregue à bebida, ele larga a profissão e passa a trabalhar como coletor de dívidas para Harry Strang (Roy Billing), um pequeno contraventor do submundo de Melbourne que vive da maximização de ganhos em corridas de cavalo “arranjadas”. É a ele e seu guarda-costas Cam Delray (Aaron Pedersen) que Jack recorre quando precisa de “músculos” em suas investigações. Em sua primeira história, Jack se envolve com a repórter Linda Hillier (Marta Dusseldorp) e o relacionamento deles é cheio de idas e vindas ao longo das histórias seguintes. As cicatrizes deixadas pela perda traumática de sua esposa tornam Jack um homem apático e isolado, que não tem planos para o futuro e parece estar vivendo a vida no automático.

Encontramos Jack quase nessa mesma situação no início da série, que segue com certa fidelidade a mesma fórmula dos outros três filmes. Dessa vez, o relacionamento entre ele e Linda esfria novamente e ela resolve passar um tempo em Manila seguindo uma história, o que é a deixa para Jack se envolver com alguma outra bela mulher ao longo dessa aventura. A novidade aqui é que a subtrama de Linda é interessante e melhor desenvolvida, apesar da incrível “coincidência” de o caso que ela está investigando estar intimamente ligado ao mistério no qual Jack se envolve. O início da trama também se desenvolve de forma muito familiar: Jack é contratado para encontrar um homem desaparecido e a situação rapidamente se complica, levando-o a lidar com uma conspiração envolvendo altos escalões do poder e empresários ricos e poderosos.

Isso dá a Jack a oportunidade de interagir com os caricatos personagens de seus círculos pessoal e profissional, que aqui recebem mais tempo de tela e injetam uma ótima dose de humor na trama. Além de Cam Delray (que cada vez mais merece sua própria série) e Harry Strang (que, dessa vez, usa Jack como laranja na compra de um cavalo), temos de volta a ainda mais divertida Simone (Kate Atkinson), que é a “pesquisadora” que ajuda Jack quando ele precisa lidar com computadores ou tecnologias do século XXI em geral, e o policial Barry Tregear (Shane Jacobson), que mais uma vez se complica ao ajudar Irish. Revemos também o bartender e os três fiéis (e geriátricos) clientes do pub Prince of Prussia, ponto de parada preferido de Jack, onde ele se encontra, por exemplo, com seu ex-colega e advogado Drew Greer (Damien Richardson). E Jack continua suas conversas ácidas e sarcásticas com o mal humorado Charlie (David Ritchie), seu professor em seu hobby como carpinteiro.

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Os quatro primeiros episódios dessa temporada equilibram muito bem a ação, o humor e o suspense típicos da franquia, sem deixar que a previsibilidade de alguns desenvolvimentos torne a narrativa cansativa. Mas é no quinto episódio que a série vai além e entrega uma carga dramática mais intensa que os filmes anteriores. Explorar os traumas e defeitos do protagonista já fazem parte da fórmula de Jack Irish, mas aqui o drama é mais impactante e devastador. Isso se deve em grande parte à nova mulher na vida de Jack, Sarah Longmore (Claudia Karvan), ao seu complicado relacionamento com Linda e a uma série de acontecimentos que mexem com alguns dos seus traumas mais profundos, como as perdas de seu pai e de sua esposa. Além disso, Guy Pearce dá ao personagem uma grande dose de naturalidade e realismo, ainda que sem perder o ar melancolicamente cool.

A grande conspiração da vez envolve um banco de fachada na Indonésia e uma mega-igreja australiana, e nos apresenta a alguns dos vilões mais cruéis e inescrupulosos da franquia. Nas primeiras cenas do primeiro episódio, vemos um grupo paramilitar iniciando um incêndio criminoso em uma vila de pescadores na Indonésia. Depois que alguns dos moradores os veem, os criminosos perdem o controle da situação e decidem matar a todos. Na manhã seguinte, uma australiana vê o estrago feito na vila, apesar de não encontrar corpos. Sua volta para a Austrália e subsequente desaparecimento desencadeiam toda a trama da temporada, que vai sendo lentamente revelada.

Com clichês que a tornam apenas mais divertida de assistir, Jack Irish – Blind Faith é obrigatória para os amantes do noir moderno e de diálogos rápidos e sarcásticos. Apesar de nos levar por um divertido passeio pelo caos urbano de Manila, uma dos principais personagens da série continua sendo a cidade de Melbourne e seu submundo, que frenquentemente salvam Irish das mais complicadas situações. Ruim de tiro e pior de briga, Jack Irish não é o típico detetive decadente e durão, mas sim decadente e humano.