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Crítica: Homem-Aranha no Aranhaverso

Spider-Man: Into the Spider-Verse, EUA, 2018


Animação é uma das melhores adaptações cinematográficas do herói

★★★★☆


Homem-Aranha no Aranhaverso traz para as telas do cinema a reinvenção do Homem-Aranha desenvolvida a partir de 2011 no Universo Ultimate da Marvel. A maior realização alcançada por essa adaptação é a capacidade de fazer fãs antigos do super-herói reviverem a intensa jornada emocional do protagonista sem necessariamente passar pelos mesmos e repetitivos acontecimentos.

A “clássica” história (adolescente nerd criado pelos tios ganha super-poderes, tenta usá-los para ganho pessoal e, inadvertidamente, permite o assassinato do seu querido tio Ben) já não possui o mesmo impacto depois de ter sido recontada várias vezes nos quadrinhos, na TV e no cinema. Por outro lado, a nova origem do super-herói no MCU, que começou em Capitão América: Guerra Civil e foi concretizada em Homem-Aranha: De Volta ao Lar (crítica aqui), é muito interessante, mas abandona o lado trágico da origem do personagem.

a origem de Miles Morales (Shameik Moore) como Homem-Aranha traz de volta alguns dos aspectos que tornaram o herói um dos mais populares dos quadrinhos. Tanto ele quanto o Peter Parker original são apenas garotos que de repente têm que lidar com problemas e situações para os quais não estavam minimamente preparados. Eles não são bilionários excêntricos, mutantes poderosos, deuses asgardianos ou soldados alienígenas, mas apenas adolescentes cujas decisões passam, de uma hora pra outra, a afetar as vidas de todos seus amigos e familiares. São as perdas que eles sofrem que moldam suas personalidades e os fazem perceber o peso de suas responsabilidades.

Mas a história do Morales de Homem-Aranha no Aranhaverso é diferente tanto da de Peter Parker quanto da do Morales dos quadrinhos. Aqui, o herói passa por suas provações enquanto lida com versões do Homem-Aranha de universos alternativos, ainda que os acontecimentos sejam diferentes dos do evento Universo-Aranha dos quadrinhos.

Durante uma visita a seu estimado Tio Aaron (Mahershala Ali), Miles é picado por uma aranha radioativa e adquire poderes similares aos do Homem-Aranha de seu universo. Algumas reviravoltas depois, o garoto se vê diante de outras cinco versões do herói: Peter B. Parker (Jake Johnson), o Homem-Aranha oficial do Universo Marvel (Terra-616); Mulher-Aranha/Spider-Gwen/Gwen Stacy (Hailee Steinfeld), que vem de um universo no qual Stacy é quem foi picada pela aranha; Porco-Aranha/Peter Porker (John Mulaney), uma versão inspirada em desenhos animados antropomórficos; Peni Parker/SP//dr (Kimiko Glenn), uma versão futurística e em anime do herói; Aranha Noir (Nicholas Cage), da linha Marvel Noir.

Juntos, eles tentam evitar que Wilson Fisk/Rei do Crime (Liev Schreiber), que conta com a ajuda de vários outros vilões clássicos do herói, reative a máquina que trouxe as outras versões para o universo de Morales, o que poderia provocar mais uma colisão entre as realidades e destruir parte de Nova York.

Mas o núcleo da trama é a jornada de Morales. Ao contrário de Parker, ele não tem tempo para tentar usar seus poderes para ganho pessoal. As responsabilidades que caem sobre seus ombros após a fatídica picada da aranha o deixam mais assustado do que inspirado. Afinal, esse é um garoto de 15 anos que de repente tem que lidar com uma situação na qual a sua vida e a de todos ao seu redor estão em risco.

A rápida sequência de tragédias (nem todas causadas por suas próprias escolhas, o que é outra diferença em relação à origem de Parker) e revelações que repetidamente partem seu coração poderiam quebrá-lo para sempre, mas no ato final ele entende que o maior poder do Homem-Aranha é a sua capacidade de se levantar e continuar lutando mesmo depois de receber duros golpes dos vilões ou das coisas da vida.

Apesar desse lado mais sombrio, os roteiristas conseguem fazer jus à outra grande característica do herói: o humor. As piadas durante as cenas de ação funcionam muito melhor do que em todos os filmes anteriores. Além disso, a grande variedade de heróis e vilões presentes na trama é muito bem aproveitada, deixando o espectador preparado para ver muito mais deles. E dado o sucesso de público e de crítica atingidos pelo filme, não é de se estranhar que a Sony já esteja pensando em uma série animada.

E se a série televisiva seguir o mesmo estilo de animação de Homem-Aranha no Aranhaverso, mais uma boa quantidade de espectadores estará garantida. As cores vibrantes e a mistura de vários estilos de animação homenageiam tanto a paixão de Morales pelo grafite quanto a mídia original do herói. Essa mistura de quadrinhos com grafite em movimento dá ao filme um visual único e estimulante, além de dialogar e se harmonizar com a história que está sendo contada.

O mesmo vale para a ótima trilha sonora, com canções como Sunflower, What’s Up Danger e Familia, que refletem perfeitamente a juventude de Morales e a diversa paisagem urbana na qual a história se passa. Assim como no caso do humor, esse também é o melhor uso de canções em um filme do Homem-Aranha.

Em suma, Homem-Aranha no Aranhaverso forma uma perfeita harmonia entre imagens, sons, ação e emoção, proporcionando assim uma das mais completas experiências cinematográficas para novos e velhos fãs de um dos mais populares heróis dos quadrinhos. Ao abandonar as restrições de seu antigo molde, o herói nascido nos anos 1960 finalmente alcança o século XXI e celebra a riqueza e a diversidade de sociedades que estão em constante evolução.