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Crítica: Gangues de Londres (2019)

Blue Story, Reino Unido, 2019


Filme foge do convencional ao fazer um retrato honesto e multifacetado de jovens envolvidos em gangues na cidade de Londres

★★★★☆


Gangues de Londres (2019) começa como uma leve comédia adolescente e se transforma em uma intensa e violenta tragédia shakespeariana. A história contada aqui pode não ser muito diferente de muitas outras histórias sobre violência nas ruas de bairros periféricos, mas a linguagem utilizada e a autenticidade das atuações dão ao filme contornos quase épicos. Em apenas 90 minutos, a produção aborda questões de amor, rivalidade, insegurança, amizade, traição, luto e vingança.

Inspirada nas experiências pessoais do diretor Rapman, que aparece narrando os eventos em forma de rap, a primeira metade da projeção mostra os melhores amigos Timmy (Stephen Odubola) e Marco (Micheal Ward) em sua rotina normal, indo para a escola e interagindo com seu pequeno grupo de amigos. Eles vivem uma adolescência típica, com angustias, inseguranças e interesses amorosos (ou sexuais) como adolescentes em qualquer parte do mundo.

Porém, essa rotina é ocasionalmente invadida pelo conflito entre gangues que ocorre na região onde moram. Longe dos cartões postais da cidade, os jovens negros (descendentes de imigrantes africanos ou da Geração Windrush) de uma Londres poucas vezes representada em filmes e séries encontram proteção e propósito em gangues de rua que existem há algumas gerações. Não se trata de uma disputa por controle de território ou do tráfico de drogas, mas sim conflitos semelhantes às brigas entre torcidas organizadas e ao hooliganismo. Em alguns momentos, essa rivalidade resulta em espirais de violência como a mostrada no filme.

Aquela rivalidade parece ser o aspecto mais importante das vidas de adolescentes e jovens adultos membros de gangues, em um ambiente que funciona com suas próprias regras sociais. Aquele é o único mundo que eles conhecem e muitos deles ignoram a perspectiva de qualquer outro.

Os Perkham Boys e os Ghetto Boys entram em um ciclo de agressão e vingança sem sentido, no qual o motivo original da desavença já parece não importar, transformando-se em um conflito quase tribal. Em alguns aspectos, é um conflito que parece estar mais próximo da realidade rural de Abril Despedaçado do que da disputa por território de Dias Sem Fim (crítica aqui), ou da série Top Boy, que se passa na mesma Londres de Gangues de Londres (2019).

É esse conflito tribal que toma conta das vidas de Timmy e Marco, transformando os amigos inseparáveis em inimigos mortais. As tragédias que encerram a primeira parte do filme são causadas e absorvidas pelo conflito entre as gangues, que encontram na vendeta pessoal entre os dois protagonistas a desculpa perfeita para propagar aquele ciclo de violência vazia e sem significado. Vidas são perdidas e alteradas para sempre com base apenas nas tempestades de sentimentos que atormentam dois jovens que não conseguem enxergar além da própria dor e dos limites dos seus bairros.

Essa é uma impressionante estreia na direção para Rapman, que já está escalado para dirigir o remake americano do filme francês O Profeta. A energia e dedicação que ele coloca em Gangues de Londres (2019), com a ajuda de Odubola e Ward em fantásticas atuações, fazem com que uma típica história de crime e vingança em um bairro periférico seja elevada a um status de conto épico sobre vida, guerra e humanidade.