Crítica: Eu, Olga Hepnarová

Já, Olga Hepnarová, República Checa, 2016


Filme faz profundo mergulho na psique de uma assassina em massa

★★★★☆


O fato de que nessa cinebiografia os diretores Petr Kazda e Tomás Weinreb traçam um retrato sem julgamentos de Olga Hepnarová é uma bem vinda fuga do padrão social de reduzir assassinos em massa simplesmente a “monstros”. Eu, Olga Hepnarová se limita a apresentar Hepnarová (interpretada por Michalina Olszanska) como um ser humano, sem condená-la ou tentando justificar/explicar seus atos. Consequentemente, cada pessoa que assiste essa obra vê um filme diferente, pois as conclusões às quais qualquer espectador possa chegar sobre ele ou sua protagonista refletem mais as visões de mundo do próprio espectador do que o que é apresentado em tela. Sendo assim, mesmo essa crítica apresenta apenas alguns dos pontos de vista possíveis sobre essa narrativa e sobre a vida de Olga Hepnarová.

hepnarova

Em 10 de julho de 1973, aos 22 anos, a jovem Hepnarová utilizou um caminhão para propositalmente atropelar 25 pessoas em um ponto de ônibus em Praga, na antiga Tchecoslováquia, matando 8 pessoas e ferindo outras 12. Antes de cometer o ato, ela enviou cartas para dois jornais da cidade explicando-o como uma vingança contra a sociedade depois de anos da indiferença de uns e o bullying de outros. Condenada à morte, ela foi enforcada em 12 de março de 1975, sendo a última mulher a sofrer a pena capital no país. O filme tenta mostrar o histórico de problemas mentais, rebeldia e alienação que culminaram nesses eventos.

A resposta de sua mãe a uma mal disfarçada tentativa de suicídio é: “Para cometer suicídio é preciso uma grande vontade, minha filha. Algo que certamente não tem. Aceite.” O episódio causa sua internação em um centro psiquiátrico para crianças e adolescentes, no qual ela sofre bullying a ponto de ser espancada pelas outras jovens pacientes. Em uma carta, ela escreve:

Estou sozinha, por isso estou lhe escrevendo. Não falo com meu pai desde a última vez que ele me bateu, no outono. Recentemente, bati na minha irmã. Por algum assunto insignificante. Estranhamente, não me arrependo. Ela costumava me bater. A única pessoa com quem eu falo um pouco é a minha mãe. Mas não temos nada para falar. Não posso conversar com ninguém. Estou sozinha em todos os lugares. As pessoas só falam, reúnem-se e riem, mesmo de coisas que não parecem engraçadas. Falam apenas para dizer alguma coisa e acham que está tudo bem. Eu sento e, por vezes, não digo uma palavra durante todo o dia. Já me acostumei com isso. Trato as pessoas com desdém. Talvez seja ofensivo, mas não os desprezo. Pergunto-me o que sentirei por eles no futuro.

Em “O Americano Tranquilo”, dizem: “Não seria preferível que não tentássemos compreender, que aceitássemos a realidade de que não é possível um ser humano compreender outro, a mulher, o seu marido, o amante, a amante, os pais, os filhos?” Se houver alguma liberdade, então é maior num homem sem vínculos com os outros. Com as pessoas. Quando estou sozinha, estou feliz. Eles me expulsam e agora esperam que eu volte? Não, nunca farei isso. Não me vejo forte o suficiente para enfrentá-los. Apenas o meu ódio estará contra eles. Odeio que não fará mal a ninguém, exceto, talvez, a mim mesma. Tento não me preocupar com a solidão mas, sim, ser feliz com ela, apesar de toda a tristeza e amargura.

Estou lhe contando meus pensamentos e não estou certa sobre eles. Sou tão infeliz ou tão feliz? Não sei. Mas, talvez, você me entenda. Quero ir para a Morávia para as férias, na minha bicicleta. Minha mãe me perguntou: Quer fazer isso sozinha? Ela não tem ideia do quanto estou solitária. Ela também ficou surpresa porque recuso-me a ir às aulas de dança. Para aprender clichês sociais? Não, obrigada. Posso viver sem as pessoas, então, posso viver sem a dança, também. Eu, realmente, gostaria de dar o melhor de mim, como escreveu-me antes.

Obrigada. Olga Hepnarová.

Esse tipo de rebeldia é comum em muitos adolescentes, mas, geralmente graças ao apoio da família ou do meio social, dificilmente se manifestam em atos tão violentos quanto os de Hepnarová. Ela não teve esse apoio. Sua vida seguiu errática: ela tem um caso com uma mulher que já possui uma companheira, e depois uma série de encontros sexuais sem muita estabilidade. Sua homossexualidade acaba contribuindo para sua alienação. Rapidamente demitida da maioria dos empregos que encontra, ela acaba se tornando motorista de caminhão em uma empresa. É quando é demitida desse último emprego e passa por mais um episódio de depressão que ela planeja e executa o atentado.

Na carta que enviou para os jornais, ela reclama de todos os abusos que sofreu na vida e mostra acreditar que a sociedade a odeia e que todos estão contra ela. Mais do que os traumas pelo qual passou, a carta expõe a típica mistura de narcisismo e auto-depreciação característica de pessoas em quadro depressivo, se achando insignificante ao mesmo tempo em que acredita ter a atenção, em forma de ódio, de todos ao seu redor. A verdade é que, apesar do que diz na carta anteriormente citada, Hepnarová falha em ver as outras pessoas como seres humanos, reduzindo-os a inimigos ou seres desprezíveis e colocando sua própria dor acima de tudo e de todos. Ironicamente, ela demonstra a mesma soberba da qual reclama da sociedade. Em sua carta-manifesto, ela diz:

Sou um ser humano destruído. Um humano destruído por pessoas. Portanto, tenho uma escolha: me matar, ou matar outras pessoas. A minha decisão é a seguinte: me vingarei daqueles que me odeiam. Vocês não teriam o que merecem se eu me tornasse uma suicida anônima. E porque a sociedade é soberba demais para condenar a si mesma, muitas vezes, é julgada em privado, às vezes, punida, por vezes, apenas escandalizada. Este é o meu veredito: eu, Olga Hepnarová, vítima de sua bestialidade, os condeno à morte por atropelamento.

A verdade essencial que seu ato de violência e o envio das cartas revelam é que Hepnarová queria, acima de tudo, ser ouvida; se manifestar de uma forma que não pudesse ser ignorada. Esse é um ponto em comum na grande maioria dos assassinos em massa (sejam radicais islâmicos ou extremistas de direita): seu maior objetivo é compartilhar suas ideias e, principalmente, suas dores com o restante do mundo. Eles querem que o mundo saiba como eles se sentem ao mesmo tempo que mostram uma completa indiferença pelos sentimentos e pelas vidas dos outros.

Já aprisionada, Hepnarová demonstra sinais de esquizofrenia, o que seu advogado expõe durante o julgamento apesar dos laudos médicos não corroborarem a hipótese de incapacidade mental. Usando sua típica eloquência, ela diz que seu ato é um aviso sobre o problema do bullying e solicita abertamente ao juiz a pena de morte. Entretanto, um ano depois, ela é arrastada aos gritos para sua execução, que até hoje é motivo de controvérsia.

O filme apresenta todos esses detalhes de forma direta e discreta, mantendo um elegante estilo narrativo e visual que não desrespeita em nenhum sentido a gravidade da história sendo contada. Sem uma trilha sonora incidental e mais focado nos fatos que na dramatização, Eu, Olga Hepnarová não é uma obra de fácil aceitação, mas certamente é um estudo que vale a pena ser visto.