Crítica: Círculo de Fogo – A Revolta

Pacific Rim: Uprising, EUA, 2018


Ação compensa os muitos pontos fracos do filme

★★★☆☆


Círculo de Fogo: A Revolta é inteiramente composto por clichês bem executados que têm sucesso na tarefa de justificar a atração principal: lutas entre robôs e monstros gigantes. Mais que isso, o filme vai um pouco além no quesito ação ao incluir duas interessantes perseguições no ato inicial e duas ótimas lutas entre os próprios robôs. A narrativa também se esforça para desenvolver bem seus personagens, mas o resultado é apenas regular. Ao invés de adicionar profundidade, os muitos personagens apenas contribuem para espalhar o foco narrativo, que vai em várias direções ao mesmo tempo.

Uma das poucas relações que funcionam bem é entre o protagonista Jake Pentecost (John Boyega) e a hacker adolescente Amara (Cailee Spaeny), respectivamente mentor e mentorada. Eles estavam à margem do sistema, mas são forçados a integrar a força militar global (Pan Pacific Defense Corps) responsável por defender o planeta dos kaijus (ver Godzilla), utilizando para isso os mechas conhecidos como jaegers (“caçadores”, em alemão). O filme poderia facilmente girar em torno da amizade entre eles, o que deixaria o roteiro mais enxuto e daria tempo suficiente para mais uma ou duas sequências de ação.

Ao invés disso, temos que acompanhar não apenas a dinâmica entre Jake e sua irmã adotiva Mako Mori (Rinko Kikuchi), que poderia ser outro ponto focal interessante, mas também a rivalidade entre ele e seu ex-colega Nate Lambert (Scott Eastwood), ao “melhor” estilo Top Gun: Ases Indomáveis. Do lado de Amara, o filme quase entra totalmente no modo “escola de cadetes” quando ela é apresentada a seus colegas e desenvolve uma rivalidade instantânea com a caricata cadete russa Viktoria (Ivanna Sakhno).

Temos também o retorno da cansativa (e expositiva) relação entre os doutores Hermann Gottlieb (Burn Gorman) e Newton Geiszler (Charlie Day). Esse último está trabalhando agora para Liwen Shao (Tian Jing), chefe da empresa de tecnologia militar Shao Corporation e portadora de visual e trejeitos típicos de vilões de desenhos animados. Ainda assim, algumas reviravoltas envolvendo esses personagens são tão ousadas quanto bem-sucedidas, incluindo uma das poucas sacadas razoavelmente inteligentes dos roteiristas.

O filme se passa 10 anos após o fechamento da fenda no Pacífico mostrado em Círculo de Fogo e consegue manter algumas das melhores qualidades do universo criado naquele filme: a alta tecnologia e o militarismo global. Ainda que seja questionável se realmente precisamos de filmes que glorifiquem o militarismo, é bem-vindo o fato de que a organização militar mostrada não seja focada ou centralizada nas forças militares dos EUA, como em muitos outros filmes do estilo. As interações entre os soldados da Pan Pacific Defense Corps, que são de diversas nacionalidades, tiram um pouco da mesmice que se poderia esperar desse tipo de situação.

Uma notável omissão em Círculo de Fogo: A Revolta é a completa e inexplicada ausência do protagonista do primeiro filme, Raleigh Becket (Charlie Hunnam). Mas isso tem uma explicação fora das telas: quando essa continuação finalmente recebeu a luz verde no início de 2016, os novos donos do estúdio Legendary tinham pressa em concretizá-la, mas Hunnman já estava com a agenda comprometida e decidiu priorizar o outro projeto. Sendo assim, esse filme não tenta explicar o sumiço de Becket justamente para facilitar o retorno de Hunman em uma provável continuação. Ainda assim, esse não deixa de ser um gigantesco buraco no roteiro.

O um ponto no qual essa continuação não decepciona é no prato principal: as lutas em escala gigantesca continuam fantásticas e ainda mais fáceis de assistir, graças ao enquadramento mais amplo e à ambientação durante o dia (a maioria das lutas no primeiro ocorriam durante a noite). O diretor Steven S. DeKnight gasta menos tempo explorando os detalhes e a escala dos robôs e das criaturas, o que tira um pouco do impacto visual, mas compensa isso dando mais dinamismo e agilidade tanto aos jaegers quanto aos kaijus.

A destruição aqui também é maior e mais inconsequente: em determinado ponto, um jaeger começa a derrubar prédios sobre um kaiju para tentar derrotá-lo. Mesmo com alguns buracos no roteiro (por que a cidade no qual ocorre a ação final não foi evacuada, já que se sabia que os kaijus estavam indo direto pra lá?), a ação é hipnoticamente exagerada e compensa as muitas outras limitações da produção (o que não acontece, por exemplo, em Tomb Raider: A Origem, para o qual dei apenas uma estrela).

Em suma, Círculo de Fogo: A Revolta faz tudo o que precisa fazer e é um produto feito sob medida pra quem passou os últimos 5 anos esperando uma continuação do sucesso Círculo de Fogo. Um roteiro mais redondo seria bem-vindo numa próxima entrada da franquia (A Revolta deixa um gancho para tal), mas percebe-se que isso não é necessário para atingir o efeito desejado.