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Crítica: Capitã Marvel

Captain Marvel, EUA, 2019


Roteiro sem inspiração atrapalha o que poderia ter sido um dos grandes filmes do ano

★★★☆☆


Se tivesse sido lançado há dez anos, Capitã Marvel seria um sucesso quase absoluto e suas falhas seriam facilmente relevadas. Porém, depois do padrão de qualidade estabelecido pelo Universo Compartilhado Marvel (MCU), as muitas imperfeições do roteiro e uma mediana performance da protagonista colocam essa aventura dentre os filmes mais fracos da Marvel Studios.

Isso não quer dizer que ele seja um fracasso. Além do típico espetáculo de ação e efeitos especiais comum nos filmes da Marvel, a produção é salva graças às ótimas atuações do elenco de apoio. Não é nada surpreendente que o Nick Fury de Samuel L. Jackson seja um dos elos fortes da narrativa, mas o espectador é pego de surpresa por performances memoráveis de Ben Mendelsohn, como Talos, e Lashana Lynch, como Maria Rambeau.

Mendelsohn já é conhecido por se destacar em qualquer produção da qual participe, mas ainda assim é surpreendente ver as camadas que ele adiciona a um personagem que poderia facilmente ser bidimensional. Ele causa um impacto semelhante e vale a pena ser assistido tanto em Jogador Nº 1 (crítica aqui) quanto em Rogue One: Uma História Star Wars (crítica aqui).

Já Lashana Lynch faz uma performance tão emocionalmente intensa e genuinamente humana que chega a destoar do clima de história em quadrinhos do restante da produção. Seu olhar sincero e sua voz trêmula aumentam o nível dramático de suas cenas e diminuem ainda mais a limitada atuação da protagonista. Para “piorar”, o filme ainda traz Jude Law e Annette Bening aumentando a personalidade e o peso dramático de seus personagens.

Infelizmente, a Carol Danvers/Capitã Marvel de Brie Larson é um dos pontos fracos da produção. A amplitude dramática da talentosa e premiada atriz desaparece misteriosamente aqui, deixando o espectador com uma heroína que parece ter um total de duas ou três expressões faciais. Larson está melhor até como coadjuvante em filmes como Scott Pilgrim Contra o Mundo e Kong: A Ilha da Caveira (crítica aqui).

É verdade que o roteiro não facilita o seu trabalho, uma vez que o arco da personagem é o mais limitado da trama. Quando a conhecemos nas cenas iniciais, ela já possui seus poderes e sua personalidade intempestiva; ao fim da projeção, ela ainda é essencialmente a mesma pessoa, porém com algumas informações a mais. É possível dizer que a personagem não evolui (ou evolui muito pouco) ao longo da narrativa, ao contrário do que ocorreu com heróis como o Capitão América, o Homem de Ferro e o Pantera Negra em suas respectivas histórias de origem.

Muitos dos problemas da produção podem ser rastreados até seu falho roteiro. Ao invés de ousar e surpreender como os de Thor: Ragnarok (crítica aqui) e Pantera Negra (crítica aqui), a escrita de Capitã Marvel se agarra ao que há de mais básico na fórmula do MCU e segue no automático até seu óbvio desfecho. Isso, inclusive, evita que seja entregue o que nos foi prometido pelos produtores: um genuíno “filmaço” de ação dos anos 1990.

Isso causa uma outra decepção: há muito pouco da década de 1990 na produção. Uma vez que boa parte do filme se passa no espaço, em outros planetas ou no deserto, os eventos poderiam ter ocorrido em qualquer outra época. Essa característica faz com que as intromissões na trilha sonora com hits musicais daquela década pareçam forçadas e expositivas. Em certos momentos, o espectador só se lembra de que o filme se passa naquela época quando alguma música começa a tocar.

Uma Capitã Marvel dos anos 1990 deveria ter a óbvia influência de uma Geena Davis de filmes como Despertar de um Pesadelo e A Ilha da Garganta Cortada. Uma outra abordagem que funcionaria muito bem seria inspirá-la em heroínas como Ellen Ripley ou Sarah Connor. Também seria interessante entregar a produção para diretoras como Kathryn Bigelow (de Caçadores de Emoção e Guerra ao Terror) ou Mimi Leder (de O Pacificador).

Outra possibilidade seria entregar o roteiro nas mãos de John Woo e solicitar gentilmente que ele o transformasse em nova versão do pequeno “clássico” A Última Ameaça, pois há pontos em comum entre as duas produções. O ideal é que o filme tivesse o clima de uma típica produção Don Simpson/Jerry Bruckheimer. Por fim, os diálogos ficariam muito mais interessantes (e mais piadas funcionariam) se o material tivesse passado pelas mãos de Shane Black, que seria melhor aproveitado aqui do que em Homem de Ferro 3.

Esse trailer re-editado por fãs resume bem o que quero dizer.

Em outras palavras, Capitã Marvel seria melhor como um genérico filme de ação dos anos 1990 do que como um genérico filme do MCU. Ainda assim, há muito que pode ser aproveitado e melhorado em eventuais sequências, especialmente em relação aos novos personagens. A que tem mais potencial é a (ainda) pequena Monica Rambeau (Akira Akbar), que, nos quadrinhos, se torna uma heroína depois de ganhar o poder de transformar seu corpo em pura energia. Monica chegou a ser a líder dos Vingadores durante algum tempo e atuou sob diversos nomes, inclusive como Capitã Marvel.

Comentários com Spoilers

Muitos fãs vão se decepcionar com a mudança da natureza dos Skrulls, que são apresentados como um povo refugiado que resiste à ocupação da raça Kree, em uma dinâmica que lembra um pouco o conflito israelo-palestino. O que muitos esperavam era a adaptação para o cinema do evento Invasão Secreta, quando os Skrulls assumiram as identidades de vários dos heróis da Terra e começaram uma lenta ocupação do planeta. De acordo com Kevin Feige, essa possibilidade ainda não está descartada.

Capitã Marvel possui duas cenas pós-crédito. Na primeira, e mais interessante, vemos alguns dos heróis sobreviventes de Vingadores: Guerra Infinita (crítica aqui) tentando entender porque o pager deixado por Nick Fury parou de funcionar, apenas para serem surpreendidos pela repentina chegada da Capitã.

Seu cabelo está diferente, mas sua aparência não está envelhecida, o que significa que talvez não se passaram mais de 20 anos para ela. Esse efeito (ver relatividade geral) já foi explorado em Thor: Ragnarok, com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) experimentando uma grande diferença no tempo de viagem até Sakaar, apesar de partirem com meros segundos de diferença. Porém, outras explicações são possíveis, como viagem no tempo ou seus poderes evitando o envelhecimento. Essa é uma resposta que talvez só teremos em Vingadores: Ultimato.

A segunda cena pós-créditos mostra o flerken Goose regurgitando o Tesseract, que ele havia engolido durante o ato final do filme. Capitã Marvel adiciona uma interessante camada na jornada desse artefato ao longo das décadas, mas não explica exatamente como ou porque Mar-Vell (Annette Bening) o levou para seu laboratório no espaço. As presenças do flerken e do Tesseract são apenas algumas das referências e easter-eggs inseridas no filme.