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Crítica: Biohackers – 1ª Temporada

Biohackers, Alemanha, 2020


Série não cativa o espectador como deveria e explora muito pouco o potencial de sua temática

★★☆☆☆


O principal problema de Biohackers é que a série consegue ser apenas interessante, sem despertar grande excitação ou curiosidade no espectador. Esse problema quase é superado no episódio final, que tenta ser mais intenso, mas isso é prejudicado por uma trama inverossímil nos mais diversos aspectos.

O maior ponto positivo da série é sua duração (são seis episódios curtos, e mesmo os de 46 minutos possuem por volta de 10 minutos de créditos finais), e ainda assim a trama parece se arrastar em alguns momentos. Isso ocorre porque os roteiros são absurdamente previsíveis, fazendo com que o espectador se limite a esperar as cenas terminarem na esperança do próximo desenvolvimento ser mais instigante. É apenas no terceiro episódio que algo mais estimulante acontece, mas o restante da temporada não mantém o mesmo nível de suspense.

Ainda no primeiro episódio, a protagonista Mia (Luna Wedler) dá sinais de estar guardando segredos e de ter segundas intenções na universidade na qual acaba de entrar, mas é difícil para o espectador se envolver na história, apesar dos flashbacks e flashforwards exibidos. Durante a maior parte do tempo, a narrativa a mostra sendo uma caloura (quase) normal em uma universidade alemã. Isso até pode ter um apelo para quem se identifica com a situação, mas esse aspecto está longe de ser o prato principal em uma série como essa.

O mesmo vale para seus colegas de alojamento e a forma como eles utilizam as biotecnologias às quais têm acesso. No fim das contas, esse é o lado mais realista da série: empolgados com a tecnologia, jovens como Chen-Lu (Jing Xiang) e Ole (Sebastian Jakob Doppelbauer) fazem os mais diversos e irresponsáveis tipos de experimentos com plantas e com eles mesmos. Mas seus experimentos não fazem parte da trama principal e acabam sendo uma atração secundária na produção, servindo apenas para estabelecer que eles possuem a capacidade de ajudar Mia quando ela precisa.

A atração principal é a busca de Mia pelos segredos da professora Tanja Lorenz (Jessica Schwarz) e os esforços da jovem para se infiltrar no círculo íntimo da acadêmica. Nas mãos de um escritor de espionagem, essa premissa poderia render tanto um suspense quanto um drama de altíssima qualidade (ver The Little Drummer Girl), mas em Biohackers fica tudo no mediano. A trama fica muito mais próxima de um drama teen, incluindo até um triângulo amoroso completamente desnecessário.

Mesmo as questões éticas levantadas pelo trabalho de Lorenz não são tratadas com a devida seriedade, fazendo da personagem uma vilã quase caricata e completamente desprovida de escrúpulos. Isso não deixa espaço para a moral complexa e cinzenta que parte dos pesquisadores da área tendem a adotar, e nem levanta questões sobre o quão longe os pesquisadores podem ou deveriam ir em suas pesquisas nesse campo. Mesmo os argumentos de Lorenz, que diz estar interessada em salvar milhões de vidas, podem ser facilmente descartados como racionalizações de uma pessoa extremamente egocêntrica e megalomaníaca.

Dada a curta duração de Biohackers, tudo isso poderia ter sido compensado no episódio final, mas ele chega acompanhado de novos e gritantes problemas. O principal deles é como a trama lida com um grave atentado terrorista à bordo de um trem a caminho de Berlim, envolvendo as forças de segurança do país apenas nos momentos nos quais elas são convenientes para a trama. Na vida real, um atentado daquela magnitude pararia o país e causaria a detenção de todos os envolvidos, inclusive das pessoas cujos nomes são apenas mencionados pelas testemunhas.

Porém, em Biohackers a resposta estatal ao atendado terrorista é tão relaxada que Mia não apenas escapa de uma zona de isolamento biológico mas também consegue (mais de uma vez!) se infiltrar em um hospital e medicar sorrateiramente as vítimas do atentado. Em um cenário mais realista, tanto Mia quanto todas as pessoas com quem ela já teve contato seriam interrogadas pelas forças antiterror para que as autoridades tentassem entender exatamente o que diabos aconteceu à bordo do trem.

Entretanto, depois que Mia salva as vidas das vítimas de forma relativamente discreta, tanto ela quanto seus colegas seguem normalmente com suas rotinas. Isso até a protagonista ser surpreendida por um novo vilão, deixando um gancho fantástico para uma possível segunda temporada de Biohackers. Infelizmente, é um desenvolvimento tão absurdamente surpreendente que é pouco provável que levará a uma trama mais séria e realista.