Crítica: Aquaman

Aquaman, EUA, 2018


Um novo rei emerge das profundezas do DCEU

★★★★☆


Antes de mais nada, é preciso dizer: Aquaman é um dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos. Ponto.

O trabalho de James Wan na direção de Aquaman pode salvar o DCEU (Universo Extendido da DC). A ousadia na edição, nas cores e na grandiosidade das cenas de ação pode estabelecer um novo padrão na cinematografia desse universo compartilhado. Apesar de ser um alucinante filme de ação e fazer um pesado uso de CGI (imagens geradas por computador), a beleza de algumas das cenas e transições evidenciam uma veia artística poucas vezes vista nos filmes de super-heróis. Talvez esse seja o filme do gênero com o visual mais impactante e arrojado até hoje.

A produção acerta em praticamente todos os aspectos, com salvaguardas pontuais apenas no roteiro. Os personagens são bem construídos e a narrativa flui de forma rápida e natural, mostrando a jornada de Arthur Curry/Aquaman (Jason Momoa) de herói misterioso para rei do Reino de Atlântida. E a história faz isso passando por diferentes gêneros: enquanto as maquinações de Orm/Mestre dos Oceanos (Patrick Wilson) funcionam como thriller político, a busca de Curry e Mera (Amber Heard) por um item perdido passa por uma aventura em ruínas sob o Saara e por momentos de puro terror no temido Reino do Fosso, com cenas tão belas quanto assombrosas.

As salvaguardas no roteiro dizem respeito aos desnecessários clichês, utilizados principalmente na construção do romance entre Curry e Mera. Recorrendo a mecanismos típicos de filmes de aventura dos anos 1980 e culminando em uma cena de beijo em um dos piores momentos possíveis (ainda que seja filmada de forma inesquecivelmente bela), esses e outros clichês representam súbitas quedas na qualidade de um roteiro que poderia ser impecável. Esses momentos contrastam com a riqueza de uma narrativa que apresenta uma mitologia fantástica de reinos submarinos e pessoas que conversam sob a água sem em nenhum momento prejudicar a suspensão de descrença.

A mitologia apresentada é digna de grandes filmes de fantasia e enriquece significativamente o DCEU, que pela primeira vez dá sinais de que pode representar uma concorrência de respeito para o MCU (Universo Cinematográfico da Marvel). O roteiro e a produção de Aquaman é uma mistura quase perfeita de dois dos melhores filmes da Marvel: Thor: Ragnarok (crítica aqui) e Pantera Negra (crítica aqui). Duelos em arenas de combate, narrativas no estilo road movie, cores vibrantes e ousadas, disputas pelo trono de um reino fantástico e mulheres fortes indo ao resgate do herói são apenas alguns dos aspectos que esses três filmes possuem em comum.

Em termos de ação, Aquaman consegue superar os outros dois filmes tanto nas cenas de guerra quanto no duelo final entre o herói e o vilão (apesar do duelo final de Pantera Negra ter um desfecho mais dramático), enquanto os filmes da Marvel fazem um uso mais controlado dos clichês típicos do gênero. Esse novo filme também possui algum comentário social, especialmente sobre a forma como a humanidade polui os oceanos, mas isso não é feito de forma tão reflexiva ou detalhada como nos comentários feitos em Pantera Negra.

O que é inquestionável é que Aquaman deixa para trás todos os outros filmes do DCEU, inclusive o campeão anterior. Mulher-Maravilha é um ótimo filme de super-heróis e representou um marco de qualidade no universo cinematográfico da Warner/DC, mas ainda não representava nenhuma grande ameaça para o reinado da Marvel. Depois de um decepcionante Liga da Justiça (crítica aqui), Aquaman chega para mostrar que o estúdio ainda não desistiu de trazer a DC para o cinema com toda a qualidade que os heróis da editora merecem. Essa reação pode ser consolidada com mais um sucesso inquestionável, como Shazam! ou o filme solo do Coringa, ambos previstos para 2019.

Os vilões representam um outro ponto forte de Aquaman. Enquanto Orm tenta se livrar da ameaça de Curry (que é seu irmão mais velho e tem direito ao trono de Atlântida) e construir uma aliança militar para declarar guerra aos moradores da superfície, David Kane/Arrai Negra (Yahya Abdul-Mateen II) busca vingança à qualquer custo depois de uma atitude lamentável do herói no início do filme. Patrick Wilson e Abdul-Mateen dão uma intensa e compreensível ferocidade a esses personagens, fazendo com que o espectador se identifique com suas motivações, ainda que não concorde com elas. Os dois estão no mesmo nível do único grande vilão que havia até agora no DCEU, o Zod (Michael Shannon) de O Homem de Aço, e com certeza seriam bem-vindos em outros filmes.

Já Jason Momoa se torna insubstituível em um papel no qual ele incorpora parte seus próprios gostos e características, dando ao personagem um ar mais radical e autêntico. Seu bom humor é contagiante e em muito lembra o Thor repaginado de Ragnarok. Amber Heard poderia estar melhor como Mera, mas ela faz o que pode dada a forma como a personagem foi escrita, passando menos um ar de guerreira poderosa e mais o de ajudante mal-humorada. Os melhores momentos da personagem estão nas sequências de ação, especialmente nas cenas de perseguição.

Aquaman é um filme de excessos, e a maioria deles funciona a favor da produção. Os aspectos problemáticos desaparecem diante da beleza, da grandiosidade e da ousadia do que é feito pelo diretor James Wan. Trazendo sua bagagem de franquias como Velozes e Furiosos e Invocação do Mal, o diretor torna Aquaman uma completa e instigante experiência cinematográfica. Os detalhes que não funcionam para os fãs de cinema, com certeza funcionam para os fãs de quadrinhos, e vice-versa. Esse pode não ser o mais genial dos filmes de super-heróis, mas com certeza é um dos mais divertidos.