Crítica: Aniquilação

Annihilation, EUA/Reino Unido, 2018


Ficção científica impressiona pela forma e pelo conteúdo

★★★★☆


Apesar de ficar um pouco decepcionado por não ter assistido Aniquilação no cinema, do ponto de vista de negócios a Paramount pode ter acertado ao vender os direitos de distribuição dessa obra para o Netflix. Esse é o tipo de filme que faz parte dos espectadores saírem do cinema chateados e querendo de volta as duas horas que acabaram de “perder”. Não se trata de subestimar a inteligência do grande público, mas de entender que nem todo mundo está interessado em mergulhar em profundas e filosóficas reflexões quando vai ao cinema.

Para o resto de nós, Aniquilação é um prato cheio. Apesar do material de divulgação erroneamente causar a impressão de que esse é um filme de ação com monstros na floresta, a narrativa constrói uma fantástica metáfora para representar seus temas principais: a “aniquilação” do que é velho para dar lugar ao novo, e as várias formas e níveis nos quais isso acontece. Rica em detalhes, a história funciona como um grande amplificador dos processos internos de mudança e evolução pelos quais passamos.

Quando o grupo de cinco mulheres liderado pela psicóloga Ventress (Jennifer Jason Leigh) entra no misterioso Brilho que apareceu em uma parte da costa americana três anos antes, elas não fazem a menor ideia do que irão encontrar. Todas as missões anteriores haviam falhado e ninguém jamais havia voltado. Porém, depois que seu marido Kane (Oscar Isaac) volta seriamente doente de uma das missões, a ex-militar e bióloga Lena (Natalie Portman) percebe que a única forma de entender o que houve com ele é se ela fizer a mesma jornada.

A aniquilação da qual o filme trata diz menos respeito à morte e mais à transformação. Durante a jornada rumo ao farol que é o “epicentro” do fenômeno, as personagens estão sempre tocando nesse tema. Quando a geomorfologista Sheppard (Tuva Novotny) fala sobre a perda de sua filha, ela afirma: “De certa forma, são dois pesares. Um pela minha linda filha… e outro pela pessoa que eu era antes.” O outro tema ao qual isso se relaciona é a autodestruição, sobre a qual a doutora Vendress dá um dos insights mais interessantes do filme:

Então, como psicóloga, eu diria que você está confundindo suicídio com autodestruição. Quase nenhum de nós comete suicídio, e quase todos nós nos autodestruímos de alguma maneira, em alguns momentos de nossas vidas. Nós bebemos ou fumamos. Desestabilizamos um bom emprego. Ou um casamento feliz. Essas não são decisões, são… impulsos.

Em outra situação, Sheppard observa como momentos passados de nossas vidas parecem ter ocorrido em vidas diferentes. Talvez até vividos por pessoas diferentes. Não apenas a sua infância acabou, como também aquela criança já não existe mais. O você que era acostumado com a rotina da escola ou da faculdade também já não está mais aqui. No médio ou no longo prazo, a vida que você conhece agora, com todos seus bons momentos, problemas e obrigações, não passará de uma lembrança longínqua de uma vida que parece ter sido vivida por uma outra pessoa.

Essas outras pessoas cederam espaço para a pessoa que você se tornou e, consequentemente, deixaram de existir. Esse é um dos motivos pelos quais é tão difícil para nós mudarmos: antes de nos transformarmos, temos que estar dispostos a extinguir a pessoa que somos agora. Independente de querermos ou das circunstâncias externas nos forçarem a mudar, toda mudança é um ato de autodestruição. Nesse contexto, querer mudar é equivalente a querer deixar de existir.

Uma forma ainda mais sombria e pessimista de interpretar essa metáfora é dizer que nós estamos o tempo inteiro cometendo alguma forma de suicídio. Seja quando consumimos álcool ou outras drogas com o objetivo de sair um pouco de nós mesmos (e, por algum tempo, deixarmos de existir) ou seja a forma como essas e outras ações necessariamente diminuam o nosso tempo nesse mundo, nós parecemos estar sempre com pressa para chegar em nosso inevitável destino final, assim como a doutora Vendress tem pressa para chegar no farol e acabar com aquela charada.

Metáforas existenciais à parte, a ótima atuação de Natalie Portman lembra seu trabalho em Cisne Negro, sendo um importante fator na criação do clima tenso que permeia a narrativa. Mesmo enquanto aprecia a beleza do design de produção, o espectador jamais consegue ficar realmente confortável, já que em diversos momentos a situação descamba para o mais puro terror físico ou psicológico.

Aniquilação possui diversos paralelos com A Chegada (crítica aqui), uma das grandes obras de ficção científica lançadas nos últimos anos. Em ambas, o aparecimento de inexplicáveis formas alienígenas jogam as protagonistas em jornadas de autoconhecimento das quais elas saem completamente transformadas. Outros exemplares dessa boa safra são Blade Runner 2049 (crítica aqui) e Ex-Machina: Instinto Artificial, que é do mesmo diretor de Aniquilação, Alex Garland.

Comentários com Spoilers

Lena: Você não é o Kane, é?
Kane: Acho que não. Você é a Lena?
Lena: …

Diante de todas as considerações acima, talvez possamos entender o verdadeiro significado do diálogo final de Aniquilação: nem Lena e nem Kane são as mesmas pessoas que eram antes. A literal transformação pela qual eles passaram está completa. E, assim como nas transformações pelas quais passamos, partes não apenas das pessoas que éramos antes mas também de todos que passaram por nossas vidas (nesse caso, o Brilho e os outros exploradores) passam a fazer parte de nós.

A tatuagem que aparece no braço de Lena talvez seja uma manifestação disso. Não sabemos qual personagem originalmente a portava, mas o desenho do ouroboros no formato do símbolo do infinito (∞) aparece tanto no braço do soldado no vídeo quanto no braço de Anya (Gina Rodriguez). Essa simbologia é uma clara referência ao perpétuo processo de mudança que vemos tanto no filme quanto no ciclo da vida. O que está vivo morre e é consumido pela natureza, dando origem a mais coisas vivas.

Talvez a Terra seria inteiramente consumida pelo Brilho, e o que havia antes morreria para dar origem a algo novo. Mas essa vida nova também seria um dia aniquilada, e o ciclo se repete. A repetição também está presente no nosso comportamento, pois mesmo as novas pessoas que nos tornamos estão fadadas a cometer erros semelhantes aos das pessoas que fomos antes. Começamos a entrar no campo do terror existencial do eterno retorno.

Já explorando um outro ângulo, a cópia de Lena, que ela enfrenta e destrói (com fósforo branco, substância conhecida pelos efeitos devastadores sobre a matéria orgânica), é uma manifestação extrema dos nossos desejos autodestrutivos: uma entidade na qual nos reconhecemos e que parecemos controlar, mas que insiste em nos sabotar e diminuir as nossas chances de sucesso. Esse lado que tenta nos destruir pode nos empurrar para uma evolução pessoal ou para um abismo. E para evoluirmos, precisamos ser impiedosos com ele.