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Crítica: Ad Astra

Ad Astra, EUA, 2019


Filme mostra uma intrigante jornada emocional ao longo de alguns dos astros do Sistema Solar

★★★☆☆


A exploração espacial é apenas o pano de fundo para a introspectiva jornada emocional no centro de Ad Astra: Rumo às Estrelas. O astronauta Roy McBride (Brad Pitt) parte em uma missão secreta ao longo do Sistema Solar, mas o que ele realmente explora é a imensidão desconhecida de seus próprios sentimentos e o mistério de como o passado moldou a sua personalidade. Mais do que uma aventura, essa é a envolvente jornada de um homem adulto em busca de maturidade e autoconhecimento.

É por isso que esse filme pode decepcionar quem estiver esperando uma história empolgante, como a de Perdido em Marte, ou épica, como a de Interestelar. Ele está mais próximo de filmes como A Chegada (crítica aqui), Aniquilação (crítica aqui) ou Lunar. A missão especial de Roy fica em segundo plano e acaba se tornando um dos aspectos menos importantes da trama conforme ela vai avançando. Mesmo nos momentos nos quais há algum suspense ou ação, o que realmente se destaca são as reflexões de natureza psico-filosóficas levantadas pelo narrador-protagonista, que chegam a ficar bem pessimistas (ou mesmo niilistas) em determinados pontos.

A lentidão da narrativa e outras escolhas feitas pelo diretor James Gray deixam claro que isso não foi por acidente.

Desde os primeiros minutos de Ad Astra, o espectador é imergido no mundo interior de Roy e em sua relação com o mundo exterior. Ele se sente alienado de sua própria vida e das pessoas ao seu redor. O Roy que ele apresenta em interações sociais é bem diferente daquele que está realmente tomando as decisões. Ele não entende os próprios sentimentos (como a raiva e a apatia) e, por isso, os suprime, especialmente aqueles relacionados a seu pai.

H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones) foi um astronauta pioneiro que partiu em uma viagem sem volta em busca de vida inteligente em outros pontos do Universo. Inevitavelmente, sua partida teve um grande impacto sobre o filho, que cresceu se sentindo abandonado pelo pai. Roy tenta racionalizar esse complexo de abandono e justificar a atitude de Clifford como um ato necessário para o desenvolvimento da humanidade, mas isso não muda o fato de que ele sente o que sente.

Ao longo da narrativa (e por meio de imagens de arquivo), é possível ver que pai e filho compartilham alguns traços de personalidade, o que deixa Roy com medo de se tornar uma pessoa como Clifford. Os dois homens se encontram aprisionados no labirinto de suas próprias limitações emocionais, e buscam no trabalho respostas que deem sentido para suas vidas. Uma vez que não se veem como parte do mundo que os cerca, eles partem rumo ao desconhecido na esperança de encontrar alguma grandiosa verdade que poderia ressignificar seus lugares no Universo.

Independente do que eles dizem buscar (vida inteligente, planetas habitáveis, Deus, etc.), o fato é que a exploração espacial serve como uma fuga da vida ordinária que eles tinham na Terra. Como se sentem alienados e acreditam que deve existir algo maior e especial, eles se isolam de seus entes queridos e partem em busca de algo que nem eles sabem o que é. Essa obsessão reduz seus campos de visão e impede que eles enxerguem as outras possibilidades oferecidas pela vida.

Assim como parte da humanidade está mais preocupada em colonizar outros planetas do que em conservar o único que temos, os McBride se esquecem de buscar realização naquilo que eles já possuem e nas pequenas coisas da vida. É uma pena que eles precisem viajar por bilhões de quilômetros e cometer erros irreversíveis (que envolvem a perda de milhares de vidas) até perceberem isso.

Em suma, Ad Astra atinge de forma satisfatória aquilo que se propõe a fazer, apesar de ser um pouco desleixado com os detalhes do plano de fundo científico/militar de sua trama. Por mais que tenha apresentado uma versão crível da colonização humana fora da Terra (exceto pelos “piratas lunares”), algumas das imprecisões físicas podem irritar os mais exigentes, como o funcionamento de certas coisas em gravidade zero.

Porém, quem conseguir embarcar no aspecto dramático da trama é agraciado com uma fantástica atuação de Brad Pitt e com belas reflexões sobre a condição humana e sua busca pelas estrelas. O título do filme é uma frase em latim que significa “aos astros”, vinda da obra do poeta Virgílio, que escreveu: sic itur ad astra, ou “assim se vai aos astros”.