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Crítica: A Incrível História da Ilha das Rosas

L’incredibile storia dell’isola delle rose, Itália, 2020


Comédia é sobre liberdade e amadurecimento, mas história real esconde outros aspectos de seu protagonista

★★★☆☆


A Incrível História da Ilha das Rosas não é exatamente um festival de gargalhadas, mas está longe de cair na monotonia. Além da força da inusitada história real contada nessa comédia dramática, a direção de Sydney Sibilia mantém um ritmo envolvente e dinâmico. Quando não está mostrando as grandes festas que ocorriam na plataforma marítima construída por Giorgio Rosa (Elio Germano), a narrativa mantém a atenção do espectador graças aos desafios legais e pessoais que ele precisa enfrentar.

São os desafios de sua vida pessoal que o inspiram a criar o seu próprio país em alto mar. Ao expressar sua criatividade por meio de invenções na Itália dos anos 1960, o engenheiro só consegue se envolver em problemas com a lei. Fica claro que toda sua “improvisação” também causa o fim de seu relacionamento com Gabriella (Matilda de Angelis), que ainda gosta dele mas que não consegue lidar com sua instabilidade. Frustrado, Rosa resolve fugir do “mundo real” e criar um lugar onde ele e pessoas como ele poderiam viver, se divertir e se expressar como bem entendessem.

Depois de construir a plataforma com ajuda de seu amigo Maurizio (Leonardo Lidi) e de atrair turistas com ajuda do promoter W.R. Neumann (Tom Wlaschiha), o sonho de Rosa parece estar se concretizando. Porém, ao solicitar o reconhecimento do país pela Organização das Nações Unidas, o “mundo real” novamente se torna um problema. O governo italiano vê a empreitada como uma afronta ao país e emprega diversos métodos para demover Rosa e os quatro outros cidadãos da República da Ilha de Rosa de montarem um país de facto.

A questão é que, de um jeito ou de outro, a ideia estava fadada ao fracasso. Se não fosse a Itália, algum outro país acabaria tendo motivos para ir contra a Ilha de Rosa. A Itália o fez por motivos morais e para evitar a criação de um perigoso precedente, mas as possibilidades de problemas são infinitas. Como Rosa defenderia a soberania de sua nação? Como ele a defenderia de criminosos com grande poder de fogo? E se um assassinato fosse cometido lá, quais seriam as repercussões? Na prática, os custos e a burocracia necessários para se manter a ilha iriam rapidamente inviabilizá-la como país.

Além disso, o Giorgio Rosa da vida real escondia outras características. Sua ilha artificial já foi considerada uma espécie de paraíso hippie, mas ela também tinha o papel de paraíso fiscal para seu proprietário, que arrecadava dinheiro com as atividades turísticas. Além disso, Rosa já foi descrito pelo jornal conservador Il Foglio como “um ex-fascista com impulsos anarco-libertários; um cara que, depois de ter sido um soldado em Salò, foi condenado como desertor” e que fugia das opressões do paternalismo da Igreja Católica, do maternalismo do partido Democracia Cristã e do anticapitalismo dos comunistas.

Entretanto, as afiliações políticas de Rosa jamais são abordadas em A Incrível História da Ilha das Rosas, que apresenta suas motivações como resultado de um pueril desejo de liberdade. Dado que suas liberdades como cidadão italiano eram planamente garantidas, esse era mais um desejo de não se responsabilizar pelas consequências de seus próprios atos, como Maurizio fazia ao roubar dinheiro de seu pai e culpar os trabalhadores pobres que vinham de outra parte da Itália.

É por isso que a versão contada em A Incrível História da Ilha das Rosas é muito mais sobre amadurecimento do que sobre aspirações políticas e econômicas. O resultado é uma leve comédia, cujo aspecto dramático (e até o romântico) funciona muito bem, apesar de não ser nada muito profundo ou inesquecível.