Crítica: A Criada

Ah-ga-ssi, Coreia do Sul, 2016


Drama romântico surpreende ao entregar um dos melhores suspenses de 2016

★★★★★


Na Coreia sob ocupação japonesa da primeira metade do século XX, a jovem vigarista Sook-Hee (Tae-ri Kim) é enviada como criada para a mansão onde vive a isolada Hideko (Tae-ri Kim), herdeira de uma grande fortuna e mantida sob forte controle pelo tio Kouzuki (Jin-woong Jo), que pretende se casar com ela para garantir acesso a seu dinheiro. O que eles não sabem é que Sook-Hee foi enviada para preparar o caminho pro vigarista “Conde” Fujiwara (Jung-woo Ha), que planeja seduzir Hideko e roubar sua herança. Essa já intricada rede de mentiras e manipulações é apenas a primeira camada de A Criada, que vai ficando cada vez mais imprevisível à medida que Sook-Hee e Hideko começam a se apaixonar uma pela outra.

Essa paixão domina a primeira parte do filme e é apresentada de forma tão sensível quanto erótica. São nos pequenos momentos de intimidade entre a criada e a jovem madame que vai surgindo uma grande atração, tão envolvente quanto natural. Os closes íntimos da câmera do diretor Chan-wook Park colocam o espectador no ponto de vista das personagens, levando-no por um intoxicante romance de época que não deve nada aos melhores desse sub-gênero. Se a narrativa fosse composta apenas por esse momentos, o filme já seria uma pequena obra-prima. A atração entre as duas culmina em uma cena de sexo que, apesar de bem explícita, se destaca pela sensualidade ao invés de cair na vulgaridade.

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Após esse momento, o dilema de Sook-Hee apenas aumenta: como trair essa grande paixão? A resposta para essa pergunta vem quando Hideko parece estar realmente caindo nas graças de Fujiwara. O grande momento de decisão de Sook-Hee é acompanhado de um plot twist que leva o filme em novas e ainda mais chocantes direções.

A segunda parte da narrativa mostra todos os acontecimentos da primeira sob um novo ponto de vista, revelando que a relação e os sentimentos entre as duas são ainda mais complexos do que parece, além dos vários planos e traições que estão sendo costurados sob a superfície. Novas facetas de todos os personagens são apresentadas, transformando o filme em um thriller psicológico perverso e sensual que deixa o espectador com os nervos à flor da pele. Esse segundo ato é uma segunda obra-prima dentro do mesmo filme. Mesmo a cena de sexo entre as duas é mostrada sob novos ângulos, revelando detalhes que mostram que a relação entre as duas não era exatamente o que vimos, tornando-a ainda mais intensa e quase pornográfica. Depois dessa montanha-russa de acontecimentos, o terceiro ato é bem menos imprevisível, mas tão delicioso de assistir quanto os dois anteriores.

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O estilo perverso e a temática de vingança (além do humor negro) típicas da filmografia do diretor Chan-wook Park (ver Oldboy e Segredos de Sangue) estão presentes nesse que é um de seus melhores trabalhos. Adaptada do romance de época Fingersmith (2002), da escritora Sarah Waters, a história parece ser uma distorcida mistura de Jane Austen com Patricia Highsmith, e deve agradar os fãs das duas autoras (mais os da segunda que os da primeira). É interessante perceber como a narrativa não perde sua superfície de romance clássico mesmo depois de inseridos elementos que são mais comuns nos thrillers de Highsmith, que renderam filmes como Carol, O Talentoso Ripley e As Duas Faces de Janeiro.

Com todas essas características e referências, não é à toa que o filme tem sido chamado de “cinema em estado puro” ou considerado obrigatório para os apreciadores da arte. Mesmo para os não apreciadores, a viagem é tão intensa quanto imperdível, seja pelo romance, seja pelo suspense, seja pelo belo visual da obra.