Crítica: A Chegada

Arrival, EUA, 2016


Ficção científica pode se tornar um novo clássico do gênero

★★★★★


Em A Chegada, a linguista Louise Banks (Amy Adams) é recrutada pelos militares para tentar se comunicar com alienígenas que pararam suas naves em diversos pontos da Terra. Ela e o físico Ian Donnely (Jeremy Renner) tem a missão de descobrir qual é o objetivo dos visitantes antes que as forças militares de vários países decidam atacá-los. Apesar dessa premissa, A Chegada não é uma ficção científica de ação ou mesmo um thriller de tirar o fôlego, mas sim um tocante drama sobre amor e perda. Os elementos de ficção científica e a trama geopolítica não deixam de ser interessantes, mas é ao focar nos efeitos desses elementos sobre a vida pessoal da protagonista que esse filme se torna uma obra inesquecível.

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Nos instantes iniciais, acompanhamos uma montagem que nos mostra desde a felicidade do nascimento até a tristeza do falecimento de Hannah, a filha adolescente que Louise perde para uma rara doença. Esse é um acontecimento central na trama, pois é através das memórias que Louise vai tendo sobre ele que vamos entendendo a natureza dos heptápodes e as mudanças que a linguista sofre à medida que vai aprendendo a linguagem escrita deles. Cada memória da relação entre ela e a filha é tão tocante quanto trágica, pois já sabemos como a história delas irá terminar.

Essas memórias são apresentadas com maestria pelo diretor Denis Villeneuve, que, com A Chegada, se consolida como um dos melhores e mais provocantes diretores da atualidade. Qualquer um de seus filmes mais recentes (Incêndios, Os Suspeitos, O Homem Duplicado, Sicario – Terra de Ninguém) pode ser considerado uma obra-prima sob algum ponto de vista, mas A Chegada é uma obra-prima sob qualquer aspecto. A fantástica montagem desse filme o torna uma experiência cinematográfica única, combinando, de forma sutil e graciosa, a ficção científica com uma história genuinamente emocionante (ao contrário, por exemplo, de Interestelar, que pesa a mão no fator emocional de forma que acaba prejudicando a narrativa). A grande revelação ao final de A Chegada é comparável apenas à terrível revelação que vemos em Incêndios, o que é algo notável.

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É verdade que parte do impacto desse filme se deve ao conto no qual ele se baseia. Do americano Ted Chiang, Story of Your Life é escrito em primeira pessoa na voz de Louise, como se ela estivesse explicando para a filha não apenas as consequências da chegada dos alienígenas mas também as consequências da chegada da filha na vida dela e do marido. A leitura desse conto também é uma experiência que fica com o leitor por dias após o seu término. Isso apenas aumenta o crédito do diretor Denis Villeneuve, que conseguiu adaptar fielmente uma experiência de leitura para um experiência cinematográfica, apesar de mudar diversos detalhes na história. Por exemplo, no conto Hannah não morre devido a uma rara doença, mas sim em um acidente durante a escalada de uma montanha, aos 25 anos. Para outros detalhes, veja os comentários com spoilers ao final desse texto.

Outro aspecto que torna A Chegada uma obra única é como a ciência do filme não está concentrada na biologia ou na física, mas sim na linguística. Em vários outros filmes do gênero, os alienígenas tipicamente aprendem inglês via transmissões de som e vídeo humanas, ou via telepatia, ou algum outro mecanismo narrativo. Porém, uma vez que é estabelecido que os visitantes não oferecem risco biológico, aqui temos a oportunidade de ver como um linguista lidaria com uma espécie alienígena inteligente, o que deixa o espectador ciente da importância e da complexidade da língua que usamos no dia-a-dia.

Com uma performance genial de Amy Adams e a mão firme de Denis Villeneuve, A Chegada é o tipo de ficção científica que amplia a visão do espectador não apenas sobre temas científicos mas também sobre questões emocionais e existenciais. Ao que tudo indica, temos aqui o mais novo grande clássico desse gênero.

Comentários com SPOILERS

No filme, Louise diz que Ian se separa dela quando ela revela o inevitável destino da filha deles, pois ele acha que ela “tomou a decisão errada”, dando a entender que Louise poderia ter alterado o futuro. Pra começar, isso gera um paradoxo: se ela tem memórias de acontecimentos que ainda vão ocorrer e um desses acontecimentos é alterado, necessariamente a memória dela também seria alterada. Ou seja, se ela tem uma memória de um acontecimento de uma determinada forma, isso que dizer que o evento ocorrerá daquela determinada forma e nenhuma outra. Se o evento for alterado e a memória dela não, entramos então no campo das teorias de viagem no tempo, com a possibilidade de surgimento de universos paralelos e afins. Além disso, o conto original explica que essas questões não fazem sentido para os heptápodes, já que a consciência que eles tem do tempo é muito diferente da nossa, pois pra eles tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Louise (e, de acordo com o conto, outros linguistas que tiveram contato com os heptápodes) está em uma posição única, pois ao mesmo tempo que ela tem o nosso tipo de consciência, ela tem as memórias típicas de um heptápode. O conto diz que:

Os heptápodes não agem de acordo com a própria vontade, e nem são autômatos sem pensamento. O que distingue o modo de consciência de um heptápode não é apenas que suas ações coincidem com os eventos da história; é também que os seus motivos coincidem com os motivos da história. Eles agem para criar o futuro, para criar cronologia.

A liberdade não é uma ilusão; ela é perfeitamente real no contexto de uma consciência sequencial. Dentro do contexto de uma consciência simultânea [como a dos heptápodes], a liberdade não é significativa, mas a obrigatoriedade também não; são apenas contextos diferentes, sendo que um não é mais ou menos válido que o outro. (…)

Conhecimento do futuro era incompatível com livre arbítrio. O que tornava possível eu ter liberdade de escolha também tornava impossível que eu soubesse o futuro. Inversamente, agora que eu sei o futuro, eu jamais agiria de forma contrária a ele (…)

Em outro trecho, ela afirma que saber o futuro não estragou em nada o momentos felizes que teve ao lado da filha, e nem diminuiu a dor de quando ela a perdeu.




O conto também entra em detalhes sobre o funcionamento dos ideogramas, o que dá uma ideia melhor sobre porque Louise conseguiu desenvolver sua nova habilidade. No conto, quando os heptápodes precisam escrever algo como “Ian anda”, eles não se limitam a escrever essa ação, e incluem todas as outras que ocorreram antes dela. Por isso, mesmo para descrever ações simples, seus ideogramas são bem complexos, pois eles descrevem ações do sujeito desde seu nascimento. É por isso que, em determinado ponto do filme, Louise diz que o ideograma desenhado pelo heptápode é muito parecido com o anterior, tendo apenas uma diferença no final. Para aprender a escrever como eles, ela tem que saber exatamente o que ela quer escrever antes de sequer começar, e assim que ela começa a ter as memórias do futuro.

Por fim, no filme fica claro que os heptápodes vieram justamente para nos oferecer essa habilidade, enquanto no conto ninguém jamais entende porque eles vieram. Em um belo dia, eles simplesmente partem de forma tão inexplicável quanto chegaram. Apenas Louise e os outros linguistas que tiveram contato com os alienígenas desenvolvem essa habilidade, e eles só compartilham isso um com o outro. No filme não fica muito claro, mas Louise compartilha sua habilidade ao menos com seu marido, Ian.