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Coronavírus: Os Seguidores do Deus da Morte

Uma corrente da psicologia evolucionista defende que o surgimento da crença religiosa dentre as populações humanas ocorreu por questões adaptativas. Sob esse ponto de vista, a crença em divindades (ou, pelo menos, em um mundo espiritual) representava uma vantagem evolutiva para as comunidades que a desenvolviam. A crença religiosa ajudava as pessoas a adotarem comportamentos e a tomarem decisões que aumentavam as probabilidades de sobreviverem e deixarem descendentes, transmitindo assim esses costumes para as gerações futuras.

É fácil imaginar uma das formas pelas quais esse mecanismo funcionaria. Diante de uma situação na qual a própria morte é o resultado mais provável, uma pessoa sem crenças no sobrenatural tem uma maior probabilidade de simplesmente desistir e encarar o destino fatal. Já uma pessoa que acredita em alguma divindade pode seguir lutando até o fim enquanto espera um milagre dos céus. Isso não quer dizer que todos os não-crentes iriam morrer e nem que todos os crentes sobreviveriam, mas, provavelmente, mais membros desse segundo grupo aproveitariam toda e qualquer chance de sobrevivência que tivessem ao seu dispor, por mais improvável que pareçam.

Mas o argumento dos especialistas não é bem esse. É preciso levar em conta também as vantagens da religião para a sobrevivência do grupo. O vínculo social e emocional provocado pela crença cria uma identidade comunitária e leva as pessoas a colaborarem umas com as outras e a compartilharem recursos. Nesse ambiente, quanto maior for a probabilidade de sobrevivência dos outros, maior é a probabilidade de sobrevivência de cada indivíduo.

Independente do cenário, o importante é que as pessoas tomem decisões que aumentem as suas chances de sobrevivência. Porém, não é bem isso o que está acontecendo diante da pandemia de COVID-19.

Algumas pessoas seguem acreditando que a atual pandemia não é tão grave e que o maior problema é o “pânico” causado pelas autoridades competentes. Uma vez que isso as leva a tomarem atitudes irresponsáveis e, muitas vezes, se exporem ao vírus de forma desnecessária, essa é uma crença que se torna uma desvantagem evolutiva. Essas são pessoas que possuem mais chances de morrerem ou ficarem com as graves sequelas que a COVID-19 tem causado nos últimos meses. Para piorar, ao se contaminarem elas ampliam a cadeia de transmissão, o que também é uma desvantagem para as comunidades das quais fazem parte.

Outra abordagem que tem efeito semelhante é a de “enfrentar o vírus”, como se a doença fosse um exército invasor ou algo parecido. Para começar, o Sars-CoV-2 não tem um plano e nem está conscientemente atacando a humanidade. Ele está apenas fazendo o que ele é programado para fazer: invadir células e se reproduzir. E acontece que os nossos corpos oferecem o ambiente perfeito para a sua reprodução, o que não seria um problema se ela não viesse acompanhada de sintomas e efeitos colaterais que já mataram centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo.

Portanto, ao “enfrentar o vírus” participando de aglomerações, deixando de usar máscaras e não seguindo outras medidas de prevenção, o que as pessoas estão fazendo é equivalente a “ajudar o inimigo”. Esse tipo de “enfrentamento” apenas provê mais ambientes (ou seja, mais pessoas saudáveis) nos quais o vírus pode se reproduzir e a partir dos quais ele pode se espalhar. Ao tomar essas atitudes, esses equivocados “combatentes” apenas ajudam a pandemia a se prolongar e a causar mais perdas de vida. Se há algum deus ao qual eles estão servindo, só pode ser algum dos vários deuses da morte.

Um outro problema é a politização das medidas de prevenção. O que deveria ser uma questão de bom senso, autopreservação e altruísmo acaba se tornando um complicado caso de garantia de liberdades individuais. Se todas as pessoas estivessem realmente interessadas em combater essa pandemia de forma eficaz, nós jamais chegaríamos numa situação onde temos que questionar até que ponto o poder público ou instituições privadas têm o direito de impor o uso de máscaras ou a prática do isolamento social. Esse é o tipo de problema para o qual a única “solução” ideal é evitar o seu surgimento.

Muito mais do que os nossos sistemas de saúde, a atual pandemia de coronavírus testa a nossa capacidade de adaptação diante de um tipo de ameaça com a qual a humanidade só tem que lidar de décadas em décadas ou de séculos em séculos. Não há nenhum grande ataque que possamos realizar para destruir esse inimigo, e nem há como negociar com ele. Esse é um tipo de combate que exige paciência, mitigação de danos e alterações drásticas em nossos bem estabelecidos estilos de vida.

Há apenas um deus, e seu nome é Morte. E há apenas uma coisa que nós dizemos para a Morte: “hoje não”.
Game of Thrones, S01E06

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