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Condor: Temporada de Caça aos Espiões

O exílio é um sonho de um retorno glorioso.
Salman Rushdie

Se em sua primeira temporada Condor utilizou a típica premissa do “agente falsamente acusado que precisa provar sua inocência” (que é o mote das obras na qual é baseada), na segunda a trama está um pouco mais próxima do mundo real. A premissa da caçada por um agente infiltrado também não é nenhuma novidade, mas pelo menos reflete vários casos reais de traição e infiltração no mundo da espionagem.

Joe Turner (Max Irons) volta de um exílio voluntário apenas para se envolver na investigação de um possível traidor dentro da CIA, que estaria colaborando com agentes do serviço russo SVR. Como se trata de uma ameaça interna, a responsável pelo caso é a agente do FBI Robin Larkin (Constance Zimmer), que possui motivações extras graças a sua inimizade com o vice-diretor da CIA, Reuel Abbott (Bob Balaban).

Mentir é errado, filho, mas se servir a um bem maior, então tudo bem.
Aldrich Ames (possivelmente, citando seu pai)

Infelizmente, Bob Partridge (William Hurt) e Gabrielle Joubert (Leem Lubany), dois importantes personagens que estão entre os poucos que sobreviveram à primeira temporada, estão ausentes dessa nova trama, se limitando a participações especiais. Porém, essas ausências colaboram para que a série saia da fórmula e explore novas possibilidades.

Essa história mais convencional é típica de muitos dos romances do autor John Le Carré, a principal referência na literatura de espionagem. Isso pode ser visto em várias adaptações de seu trabalho, como nas minisséries O Gerente da Noite e The Little Drummer Girl (análise aqui), nas quais os protagonistas estão infiltrados em grupos criminosos. Mas, em sua obra, a grande caçada por um infiltrado está em O Espião Que Sabia Demais, romance no qual o mestre-espião George Smiley sai da aposentadoria para identificar um traidor nos altos escalões do serviço secreto britânico.

Não existe isso de “ex-agente” da KGB.
Vladimir Putin

Uma das principais influências para Le Carré foi o caso dos Cinco de Cambridge, um grupo de traidores à serviço da inteligência soviética que jogou na lama a credibilidade do MI6 em meados dos anos 1950. Porém, a trama da segunda temporada de Condor está mais próxima do caso de Robert Hanssen, um agente do FBI que vendeu segredos para os russos de 1979 até sua captura em 2001, que foi dramatizada no filme Quebra de Confiança.

Há uns dez ou quinze anos, uma história de espionagem na qual os principais antagonistas são agentes russos seria considerada um clichê absolutamente antiquado, uma herança preguiçosa dos tempos da Guerra Fria. Porém, a atuação da Rússia de Vladimir Putin nos últimos cinco anos, que inclui acusações de que os russos estariam pagando recompensas por mortes de soldados americanos no Afeganistão, renovou a relevância do país como adversário das grandes potências ocidentais. A inteligência russa é a “vilã”, inclusive, no mais recente romance de Le Carré, Agent Running in the Field, sobre o qual escrevi aqui.

O homem não é o que ele acredita ser. Ele é o que ele esconde.
André Malraux

Além de tentar reunificar os serviços de inteligência do país, o que os deixaria muito semelhantes à antiga KGB, acredita-se que Putin jamais abandonou o modus operandi da antiga agência para garantir poder e influência tanto domesticamente quanto no exterior. Agora que conseguiu uma mudança na lei eleitoral que o permitiria governar o país até 2036, será possível descobrir exatamente qual a sua visão para a Rússia e para o mundo nas próximas décadas.

Todos devem sair de seu exílio à sua própria maneira.
Martin Buber

Mas o que torna a segunda temporada de Condor uma bem-sucedida história de espionagem são os dramas humanos, a começar pela situação do traidor. Seus sonhos de glória e reconhecimento na Agência são abruptamente interrompidos, mas suas ilusões de grandeza não. Essa é uma pessoa que acredita estar destinada a algo grande e especial, e se ela já não pode conseguir isso por meio da CIA, ela tenta por meio da SVR. Se para a CIA ele é apenas mais um funcionário, para a SVR ele é uma pessoa importante, indispensável, com um altíssimo valor operacional. Uma verdadeira estrela. Um grandioso traidor.

Não se olha duas vezes para uma oferta de emprego em uma força de elite.
Kim Philby

É interessante ver o contraste entre as formas pelas quais ele tenta justificar seus atos para si próprio e o completo niilismo de suas últimas ações. Uma vez que o cerco começa a se fechar, não existe mais conceito de certo ou errado, e a única coisa que lhe importa é a sobrevivência.

O mesmo vale para os agentes russos Vasili Sirin (Alexei Bondar), Kat Gnezdy (Isidora Goreshter) e Volk (Jonathan Kells Phillips). As escolhas que fazem e os erros que cometem vão colocando os três em situações cada vez mais complicadas. No caso de Sirin, há um sonho romântico de uma nova vida em um novo país, que vai lhe parecendo cada vez mais ingênuo à medida que os atentados contra a sua vida vão aumentando. Gnezdy e Volk também são traídos pelo próprio sentimentalismo (em um dos casos, combinado com uma boa quantidade de vodka), algo que não era de se esperar de tão disciplinados e endurecidos agentes de uma conceituada agência de inteligência. Mas antes de agentes de inteligência, eles são seres humanos.

Tudo o que ouvimos é uma opinião, não um fato.
Tudo o que vemos é uma perspectiva, não a realidade.
Marco Aurélio

A segunda temporada também é marcada pelo retorno de Mae Barber (Kristen Hager) e sua família, que ainda está tentando lidar com os eventos da primeira temporada. Eles entram em choque com Reuel Abbott, o fanático responsável por uma conspiração que resultaria na morte de milhões de pessoas, e que agora se encontra no meio de uma crise existencial. Pela primeira vez em muitos anos, ele reflete sobre a pessoa que foi um dia em oposição à pessoa que é agora.

Uma possibilidade de felicidade faz nascer nele a esperança de uma nova vida, mas, depois de tudo o que ele fez, ter uma vida feliz seria pior do que ser castigado por seus crimes. Que tipo de felicidade seria possível quando sua consciência jamais o deixaria em paz? Abbott também lembra o vilão Karla da obra de Le Carré, especialmente quando, na adaptação cinematográfica de O Espião Que Sabia Demais, Smiley (Gary Oldman) diz: “É por isso que sei que ele pode ser derrotado: ele é um fanático, e um fanático está sempre escondendo uma dúvida secreta.”

Nós frequentemente encontramos nosso destino na estrada que seguimos para evitá-lo.
Jean de la Fontaine

Porém, nessa temporada, os arcos dramáticos mais trágicos e que melhor demonstram a fragilidade humana são os de personagens presos em tramas que jamais conseguiriam entender, ou que só entenderiam quando fosse tarde demais. Cegos por ressentimentos pessoais ou por objetivos de curto prazo, eles andam pelo mundo seguros de suas opiniões, de seus pontos de vista, de suas decisões, de que entendem como as coisas funcionam e de que estão no controle da situação. Invariavelmente, eles acabam surpreendidos pela implacável realidade e perecem antes de terem tempo suficiente para processar o que foi que lhes atingiu.

O maior perigo de todos, o de perder a si próprio, pode ocorrer de forma bem silenciosa no mundo, como se nada fosse.
Sören Kierkegaard

Na segunda temporada de Condor, as citações das quais são tiradas os título dos episódios continuam intrigantes e inspiradoras, mesmo aquelas de autoria de conhecidos traidores, como Kim Philby ou Aldrich Ames. Elas representam especialmente a transformação que Joe sofre ao longo dessa temporada, que é uma continuação da transformação que sofreu na temporada anterior. Dessa vez, ele foi até o fim sem dúvidas ou relutância, se transformando exatamente naquilo que ele havia prometido não se transformar: um dedicado e pragmático agente da CIA.

Mudar não significa necessariamente perder a sua identidade; mudar, às vezes, significa encontrá-la.
George Brown Tindall