Bojack Horseman e o Manual de Instruções

A quarta temporada de Bojack Horseman lança um olhar ainda mais dedicado sobre os coadjuvantes dessa já cult série. Tão engraçada e tão devastadora quanto as duas temporadas anteriores, essa nova leva de episódios realça a influência do sexismo sobre as instituições que formam a sociedade e sobre a formação psicológica de homens e mulheres. A estória dá mais insights sobre o porque de Bojack (Will Arnett) ser como ele é ao mostrar a fundamentação familiar de sua mãe, que nas temporadas anteriores foi mostrada infligindo os mais diversos tipos de abuso psicológico sobre seu próprio filho.

Além disso, a primeira metade da temporada dá um rápido mergulho no absurdo estado atual da política dos Estados Unidos. A má noticia é que, em diversos aspectos, essa sátira acaba sendo menos absurda que a realidade.

Mister Peanutbutter e a crueldade de Darwin

bojack_season4_1Já no primeiro episódio vemos Mister Peanutbutter (Paul F. Tompkins) tentando se candidatar a governador da Califórnia usando os mesmos mecanismos que Donald J. Trump usou na vida real para se candidatar e ser eleito presidente dos EUA: popularidade e ultraje. Ao se colocar como diferente dos políticos normais e mais próximo do povo (apesar de ser uma celebridade rica e cheia de privilégios), ele consegue conquistar não apenas uma boa parte da população, mas também o vital apoio de doadores de campanha.

Mais do que o egocentrismo do labrador, essa situação evidência a fragilidade do eleitor mediano, que em tempos de incerteza está disposto a apoiar até o mais absurdo dos candidatos, simplesmente por ele estar dizendo exatamente o que as pessoas querem ouvir. Ao invés da abordagem cuidadosa e ponderada de um verdadeiro gestor público, candidatos como esse prometem as “soluções” mais diretas, imediatas e ineficazes para os anseios da população, como construir muros entre países ou declarar uma temporada de caça a usuários de drogas. Para alguns eleitores, o fato de medidas como essas irritarem a “torcida rival” já é motivo suficiente para defendê-las.

A situação também revela alguns dos traços mais íntimos desse tipo de candidato: no fim das contas, a única coisa que ele quer é ser aceito. Trump vive pelo amor das multidões, e ele consegue esse “amor” não por ter alguma teoria genial sobre o que as pessoas querem ouvir, mas sim por ter aprendido, por meio de tentativa e erro ao longo de toda sua vida, como e o que dizer para que as pessoas confiem nele. Mais que isso, ele acredita em sua própria lenda e no fantástico raciocínio, compartilhado por boa parte de seu eleitorado, de que se ele é rico, é porque deve ser inteligente e sabe o que está fazendo. As pessoas então acreditam que ao eleger essas figuras, estarão tendo acesso a parte do sucesso delas.

Porém, mais cedo ou mais tarde, a conta chega. No sétimo episódio, Mister Peanutbutter mais uma vez desafia a liderança do governador Woodchuck Couldchuck Berkowitz (Andre Braugher). Instigado por sua ex-esposa e gerente de campanha Katrina (Lake Bell), que faz a vez de um Roger Stone ou Steve Bannon, ele questiona o esquema de racionamento de água e comida implementado por Berkowitz enquanto eles estão presos no subsolo com um grupo de celebridades, fazendo-as regredir a um nível tribal. Alguns dias depois da mudança de poder e de Peanutbutter permitir que todo mundo comesse o quanto quisesse, os recursos acabam e todos eles começam a passar fome.

Algo equivalente já está acontecendo com os eleitores de Trump: seu presidente “gente como a gente” já apoiou mudanças legislativas que tirariam a cobertura de plano de saúde de milhões de americanos, em grande parte pessoas pobres ou de classe média baixa que o apoiaram na eleição. Como se isso não fosse suficiente, as mesmas mudanças dão consideráveis cortes de impostos para os mais ricos, ajudando justamente as elites que teoricamente foram tiradas do poder. Isso sem falar na negação das mudanças climáticas provocadas pelo homem, que também irão atingir mais violentamente os mais pobres.

Mas é até questionável se Trump sabe o estrago que está fazendo, pois ao invés de se inteirar dos detalhes da leis, ele está mais preocupado em passar a imagem de que, de alguma forma, ele está fazendo exatamente o que prometeu, e de que qualquer coisa que dê errado é culpa dos outros. Uma sincera frase de Mister Peanutbutter ainda no primeiro episódio começa a explicar essa situação:

Pessoalmente, eu gosto de Woodchuck e acho que ele é um bom governador, mas por alguma razão, mesmo eu não tendo nenhuma qualificação, eu honestamente pensei que seria um governador melhor.

Ou mesmo, no quarto episódio:

Diane, é só uma campanha. Nada do que dizemos em campanha importa. É só prometer coisas para que votem em você. E depois, quando for eleito, você pode fazer o que bem quiser.

Beatrice Horseman

Ao mostrar os eventos que levaram Beatrice (Wendie Malick), mãe de Bojack, a se tornar a megera impiedosa que vimos nas três primeiras temporadas, a série nos conduz pelo pesadelo que era ser mulher na América de 6 ou 7 décadas atrás. Inclusive, as dificuldades e pressões que as mulheres sofreram e sofrem nas nossas sociedades são temas recorrentes nessa temporada. Enquanto os vários arcos narrativos de Diane (Alison Brie) lidam com vários aspectos do sexismo institucionalizado na sociedade americana, o arco maior de Princess Carolyn (Amy Sedaris) é um outro “soco no estômago” que toca nesse tema.

Os flashbacks da infância e juventude de Beatrice não tentam justificar seu comportamento, mas sim contextualizá-lo no ciclo de abuso que aparentemente teve início com sua mãe, Honey Sugarman (Jane Krakowski). Ela foi lobotomizada porque seu marido Joseph (Matthew Broderick) não conseguia lidar com a depressão na qual ela caiu após perder o irmão na Segunda Guerra. Beatrice cresceu então com uma mãe que efetivamente não estava lá e um pai que ainda parecia incapaz de lidar com emoções humanas.

bojack_season4_2Esse último detalhe mostra que o ciclo de abuso do qual Bojack deverá ser a última vítima não começou com o que Joseph fez com Honey e Beatrice, mas sim com seja lá o que levou Joseph a ser como ele era. Numa sociedade que ainda considerava as mulheres como cidadãs de segunda classe, o comportamento dele era não apenas aceitável mas também recomendável. Sua visão de mundo era baseada naquela sociedade, e provavelmente ele viu seus pais ou mesmo outros casais passando por situações semelhantes e aprendeu com eles. Isso, é claro, não o exime de culpa, mas contextualiza suas ações.

O ponto ao qual quero chegar é: cada pessoa vive e cria os filhos da forma que ela acha correta, com base em sua própria visão de mundo. Beatrice criou Bojack tentando prepará-lo para o mundo frio, cruel e indiferente que ela mesmo conheceu. O resultado não foi o que ela esperava porque não há um manual de instruções que diga exatamente o que uma pessoa deve fazer para que seus filhos cresçam para ser exatamente o que elas queriam. Cada um pode fazer o seu melhor (ou não), mas ninguém consegue controlar o resultado (e o mesmo vale para os eleitores de Trump: algumas coisas só aprendemos na prática).

Um pai pode tentar incentivar um filho a trabalhar ou estudar chamando-o de “inútil”, mas talvez ele só consiga diminuir a auto-estima do garoto. Uma mãe pode tentar incentivar uma filha a ter hábitos mais saudáveis ao dizer que ela está “gordinha” e que “assim ninguém vai querer ficar com você”, mas, mais uma vez, é a auto-estima que pode ser atingida. No sexto episódio, a voz interna que constantemente diz pra Bojack que ele é “um merda” provavelmente foi colocada lá por seus pais enquanto eles manifestavam suas próprias visões de mundo.

A boa notícia é que agora Bojack tem a chance de fazer diferente. Apesar de estar longe de ser uma pessoa exemplar, o vemos tentando ser o seu melhor com Hollyhock (Aparna Nancherla). Isso não quer dizer que ele não vá cometer erros, mas pelo menos não serão os mesmos de seus pais e avós. Já Hollyhock não vai ter que lidar com a forma com as quais as mulheres eram tratadas na década de 1940, mas o século XXI também está longe de ser um mar de rosas para os direitos femininos.