Modo Noturno:

As Confortáveis Armadilhas da Ideologia

No filme Tubarão, um tubarão começa a atacar as pessoas em uma praia. O que esse ataque significa? O que o tubarão representa? Havia diferentes e contraditórias respostas para essa pergunta.

Por um lado, alguns críticos diziam que obviamente o tubarão representava uma ameaça estrangeira para os americanos comuns. O tubarão seria uma metáfora para um desastre natural, tempestades ou imigrantes ameaçando os cidadãos dos Estados Unidos. Por outro lado, é interessante notar que Fidel Castro, que adora o filme, uma vez disse que, para ele, era óbvio que Tubarão é uma espécie de filme esquerdista e marxista, e que o tubarão é uma metáfora para a brutal exploração dos americanos comuns pelo grande capital.

Então, qual é a resposta certa? Eu digo que nenhuma das respostas e, ao mesmo tempo, todas as respostas estão corretas.

O trecho acima é do documentário O Guia Pervertido da Ideologia (que é continuação de O Guia Pervertido do Cinema), no qual o filósofo de extrema-esquerda Slavoj Žižek analisa diversos clássicos do cinema sob a óptica da filosofia e da psicanálise. Žižek enxerga propósito ou significado mesmo nos detalhes mais “inofensivos” dessas histórias, que nem sempre foram inseridos de forma consciente pelos cineastas responsáveis pelas produções.

Suas análises são mais representativas de sua própria ideologia do que da ideologia contida nos filmes analisados. E ele está ciente disso, como pode ser visto na análise que ele faz do filme Eles Vivem:

O grande problema das ideologias começa quando uma pessoa ou um grupo de pessoas passa a acreditar que não possuem uma delas. Ou seja, que suas crenças e pontos de vista políticos, filosóficos ou religiosos não são apenas crenças e pontos de vista, mas sim a verdade absoluta. O problema começa quando alguém diz que não está defendendo nenhuma ideologia, mas apenas o que é objetivamente e inquestionavelmente certo. Isso é problemático porque, sob tal condição, seria justificável aniquilar (nos mais diversos sentidos) quaisquer pessoas que discordem dos seus pontos de vista, pois elas estariam simples e inerentemente erradas.

Além disso, as lentes da ideologia estão sempre afetando o modo como as pessoas enxergam o mundo e a realidade. Por exemplo, estudantes e profissionais da área de humanas tendem a fazer análises estritamente sociológicas ou políticas dos acontecimentos, muitas vezes ignorando as dimensões físicas e biológicas da realidade. Alguns deles veem o ser humano como uma entidade acima de tudo moral, sempre tomando decisões com base em rebuscados conceitos filosóficos ou sociológicos. Enquanto para eles uma eleição pode ser um profundo embate de ideias e propostas, para boa parte da população o certame não passa de um concurso de popularidade.

Por outro lado, pessoas ligadas a área de exatas insistem em analisar o mundo por um prisma estritamente quantitativo, ou invocando uma lógica supostamente pura e objetiva, quando na verdade tal pureza objetiva não existe e nem pode existir em seres que são essencialmente subjetivos. Uma pessoa não consegue simplesmente aniquilar todos seus sentimentos, crenças e preconceitos para analisar qualquer assunto de um ponto de vista estritamente lógico. Inclusive, tal ponto de vista puramente objetivo poderia ser um objeto de estudo da filosofia ou da psicologia, não de disciplinas exatas que são obrigadas a discretizar (e, consequentemente, simplificar) o mundo para modelá-lo.

Uma diferenciação semelhante pode ser traçada entre o conservadorismo e o progressismo, com a salvaguarda de que o conservadorismo tem um apelo popular muito maior. Nesse artigo, a autora invoca a Teoria das Fundações Morais do psicólogo social Jonathan Haidt para explicar o porque desse apelo maior do conservadorismo e porque os conservadores conseguem entender os progressistas enquanto os progressistas se mostram incapazes de entender os conservadores:

Fomos moldados pela evolução para ter [seis] fundações morais: o cuidado, a justiça, a lealdade, a autoridade, a santidade e a liberdade. (…) A moral progressista (…) e seus valores sagrados mexem só com duas fundações: o cuidado, que tem sua expressão na defesa dos direitos humanos e de minorias; e a liberdade, que se revela com a narrativa da revolução socialista. A seu turno, os conservadores têm valores sagrados para ativar cada fundação moral. O patriotismo responde pela lealdade; a meritocracia, pela justiça; a religião à santidade; e há o respeito a autoridades. (…) Há o problema de, por operar com apenas duas fundações, o sujeito que [participa da moral progressista] não conseguir interpretar os valores de moralidades mais amplas. O mesmo não se dá com o conservador.

Isso se dá mesmo com o “novo conservadorismo” agora existente no Brasil, apesar dele estar muito longe das bases do conservadorismo original. Como pode ser lido nas colunas de Elio Gaspari aqui e aqui, enquanto forças progressistas tentam avançar as chamadas agendas do Século XXI (legalização do aborto, descriminalização das drogas, luta contra a homofobia, etc.), as camadas que agora ganharam voz no cenário político (graças ao acesso à Internet) possuem demandas que começaram no Século XIX, como segurança, saneamento básico e transporte público.

E, por não terem familiaridade com o ambiente digital, esses novos internautas estão à mercê de fake news e outras formas de manipulação, como mostrado no documentário Depois da Verdade: Desinformação e o Custo das Fake News (crítica aqui). Não é que os manipuladores sejam gênios da propaganda ou da psicologia, mas apenas pessoas com um limitado desenvolvimento moral que, por meio da tentativa e erro, conseguiram encontrar fórmulas de sucesso para gerar engajamento. Quando confrontados, eles geralmente saem pela tangente e não se responsabilizam pelas consequências de seus atos, como um deles diz nesse artigo:

O que fazemos são modificações [sobre o noticiário] para tornar a notícia mais fácil e interessante. (…) Quem tem de saber o que é verdade ou mentira é quem lê a matéria.

Para decidir se é verdade ou mentira, o leitor irá invariavelmente fazer uso de sua ideologia. Ele irá acreditar nas partes que lhe forem convenientes e rejeitar o que for inconveniente. De preferência, ele só irá clicar em links e abrir artigos com os quais já sabe que vai concordar. A leitura não será para se informar, mas apenas para confirmar as ideias nas quais ele já acredita e aumentar o seu nível de conforto com elas. Seja à esquerda ou à direita, já existem completos ecossistemas online nos quais uma pessoa é capaz de navegar por horas e ler dezenas de artigos (ou assistir dezenas de vídeos) sem jamais ter uma única ideia ou ponto de vista questionados.

Até que se ache uma forma de fortalecer o nosso “sistema imunológico” contra fake news e gurus ideológicos, só nos resta ficar com o humorístico ponto de vista do Manifesto Nein, que define ideologia como “a crença equivocada de que suas crenças não são crenças e nem estão equivocadas.”