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A Solidão nos Tempos de Cólera

Mesmo antes do isolamento social exigido pela atual pandemia de COVID-19, a solidão já estava sendo tratada como um problema de saúde pública em vários países. As consequências políticas e econômicas de se ter um crescente número de pessoas se sentindo desconectadas de suas comunidades e de seus familiares vêm se mostrando cada vez mais graves. Não se trata apenas da diminuição da expectativa de vida dessas pessoas, mas também dos comportamentos nocivos que elas podem desenvolver, como o obsessões e extremismos. Esse artigo sobre o tema, publicado em 2018, diz:

Médicos e políticos no mundo desenvolvido estão cada vez mais preocupados com a solidão. Campanhas para reduzi-la foram lançadas no Reino Unido, na Dinamarca e na Austrália. No Japão, o governo fez um levantamento dos hikikomori, ou “pessoas que se fecham em suas casas”. No ano passado, Vivek Murthyu, um ex-cirurgião-geral dos EUA, considerou a solidão uma epidemia, comparando seu impacto sobre a saúde ao impacto causado pela obesidade ou por fumar quinze cigarros por dia. Em janeiro [de 2018], a primeira ministra britânica Theresa May nomeou uma ministra da solidão.

O fenômeno dos hikikomori está ligado à incapacidade que muitos jovens demonstram em lidar com as pressões da vida adulta, especialmente quando há muita cobrança das pessoas ao redor, levando-os a preferir uma existência isolada da sociedade. Inicialmente, achava-se que só ocorria no Japão, mas ele vem aparecendo cada vez mais em outros países.

Essa reportagem especial da revista Superinteressante, intitulada A Explosão da Solidão, faz um ótimo levantamento sobre muito do que se sabe sobre o assunto, da incidência de doenças sobre pessoas solitárias às raízes biológicas e culturais tanto da solidão quanto das nossas tendências à sociabilidade. Um dos pontos levantados é que a interdependência entre as pessoas vem diminuindo cada vez mais, pois precisamos cada vez menos interagir com as mesmas pessoas todos os dias. Além disso:

E mesmo entre as pessoas que conhecemos, a distância tende a aumentar – pois temos cada vez menos pontos em comum com elas. Você já deve ter reparado que as pessoas estão discordando cada vez mais, e de forma mais intensa. E os poucos pontos em que muita gente concorda (…) são rapidamente descartados, sucedidos por outras novidades culturais. Não duram tempo bastante, ou carregam peso suficiente, para construir ou fortalecer vínculos sociais. Antes você ficava amigo das pessoas que gostavam de ouvir e ver as mesmas coisas que você. Hoje, há muito mais opções culturais – e, inevitavelmente, menos pontos de convergência entre elas. É maravilhoso ter opções. Mas isso também possui um lado negativo, que é possuir cada vez menos coisas em comum com os outros. “Quando uma pessoa percebe que deixou de ter significado para os outros, ela se descobre em solidão”, diz Machado Pais.

Estamos mais sozinhos. Mas o corpo e a mente continuam precisando de companhia. “Por mais saudáveis e tecnológicas que as nossas sociedades tenham se tornado, sob a superfície somos as mesmas criaturas vulneráveis que se aconchegavam juntas contra o terror das tempestades 60 mil anos atrás”, diz Cacioppo. Somos só um bando de primatas assustados. Mortos de medo de ficar sozinhos, e do mundo solitário que acabamos construindo.

A solidão também possui sua parcela de envolvimento no atual clima de radicalismo político que permeia o mundo. Uma vez que já não é tão fácil encontrar pessoas com os mesmos gostos e preferências nos círculos sociais imediatos, muita gente recorre ao mundo online das mídias sociais para encontrar e filtrar exatamente os indivíduos com quem ela se considera compatível. Isso causa o surgimento de “bolhas” de comunicação que se consideram autossuficientes e não dão espaço para visões ou experiências diferentes daquelas das pessoas que a formam. Parte desse fenômeno é tratado no livro A Máquina do Ódio, sobre o qual escrevi aqui.

O isolamento dessas bolhas permite que seus membros sejam capazes de distorcer a realidade das formas mais absurdas sem que ninguém os questione internamente, como no caso dos terraplanistas. Uma vez que todas as críticas vêm de fora da bolha, elas podem ser descartadas como “intriga da oposição” ou como teimosia de pessoas que possuem a “mente fechada”. Veja que, nesse caso, uma pessoa só possui a “mente aberta” se ela acredita nas absurdas teorias do grupo.

O que pessoas solitárias encontram nesses grupos é um acolhimento que elas não encontram na vida real. Ali, elas encontram não apenas pessoas que concordam com elas, mas também um senso de exclusividade. Por exemplo, o fato de que os terraplanistas são amplamente ridicularizados apenas reforça a identidade do grupo, cujos membros se sentem injustiçados e sonham com o dia da revanche, no qual sua suas ideias finalmente serão aceitas e eles se sentirão vingados. Isso nunca vai ocorrer, mas o importante é que eles acreditam veementemente que sim.

A solidão que empurra as pessoas para esses grupos é mais comum em adultos que tiveram suas vidas desestruturadas, como divorciados ou enviuvados. Isso é ainda mais grave no caso dos homens, para os quais o casamento muitas vezes é a única relação com intimidade emocional que eles possuem. Essa conhecida limitação do universo masculino é parcialmente explorada no documentário O Silêncio dos Homens, que pode ser assistido aqui.

De acordo com esse artigo, o divórcio é mais difícil para o homem, pois: eles tentam pular a fase do luto; sua saúde diminui drasticamente; eles perdem sua identidade; se apressam para formar novos relacionamentos amorosos; e sentem falta dos filhos, já que na maioria das vezes a mãe fica com a guarda deles. Além disso, o texto diz:

Separações são difíceis tanto para homens quanto para mulheres, mas a maioria das mulheres estão melhor preparadas para lidar com seus sentimentos e seguir em frente após a fase do luto. Isso provavelmente se dá porque as mulheres tendem a possuir uma rede de apoio muito melhor – amigas próximas com quem conversar e de quem podem receber conforto e incentivo – e são mais inclinadas a fazer terapia. Já se mostrou que as mulheres sofrem um pequeno declínio na saúde física e emocional, mas os mesmos efeitos são muito mais graves nos homens, já que eles não procuram nenhum tipo de apoio psicológico.

Uma vez que perdem (ou jamais desenvolvem) um senso de identidade, muitos homens recorrem a ideais fantasiosos de masculinidade equivocadamente baseados em grupos históricos. É o caso do tribalismo masculino e do fascínio por temas medievais adotados por muitos grupos de extrema-direita. São homens que se recusam a aceitar as evoluções comportamentais ocorridas nas últimas décadas (proporcionadas tanto pelo feminismo quanto por desenvolvimentos na psicologia) e insistem que o jeito “certo” de ser homem é o que eles veem em filmes e séries que se passam naquela época. As narrativas medievais também são utilizadas por grupos que defendem o supremacismo branco, um problema que já é reconhecido pelos especialistas:

Em um recente ensaio no popular blog acadêmico In The Middle, Sierra Lomuto defende que medievalistas possuem “uma responsabilidade ética de garantir que o conhecimento que nós criamos e disseminamos sobre o passado medieval não seja utilizado como arma contra pessoas de cor e comunidades marginalizadas no mundo contemporâneo.” Os acadêmicos estão colocando uma nova ênfase em diferenciar as sociedades medievais do mundo homogêneo imaginado pela alt-right. Historiadores da arte documentam a aparição de migrantes de pele escura no norte da Europa para mostrar que as populações medievais, mesmo que não fossem tão itinerantes quanto hoje, ainda se moviam com frequência. Outros focam no multiétnico Reino da Sicília, onde reis Normandos empregavam administradores árabes e judeus, ou em Cristina de Pisano, que escreveu tratados de ciência militar no Século 15, quando a área era ainda mais dominada por homens.

Mas garantir que a História não seja utilizada de forma nociva é apenas uma pequena parte da equação. Uma outra parte é evitar que a frustração sentida por jovens e adultos diante de uma sociedade que muda cada vez mais rápido não seja aproveitada por líderes extremistas que incentivam o individualismo e a divisão entre as pessoas. Nesse artigo, o psicanalista Christian Dunker diz:

Você se sente sufocado na multidão no metrô voltando para casa depois de um dia de trabalho e, ao mesmo tempo, se sente sozinho. É um sentimento de que você não é reconhecido na sua diferença, na sua diversidade, na sua singularidade. Você é qualquer outro, substituível, substituído. Esse sofrimento é aproveitado por tiranos, antigos e novos populistas, que dizem: “Ei, você, eu sei que você é especial. Você não é irrelevante. O inimigo são os outros, não você”. Isso é parte da retórica do bolsonarismo, que se nutre da dor dos outros.

Mas o incentivo à divisão entre as pessoas não é um monopólio do bolsonarismo ou da direita. Muitos movimentos de esquerda vêm se demostrando incapazes de agregar aliados graças a posturas que, muitas vezes, podem ser consideradas tribais. Ao invés de se construir espaços de discussão que aceitem pessoas com diferentes visões políticas e se foque no que elas possuem em comum, vários movimentos se comportam muito mais como seitas, exigindo que os participantes abandonem tudo no que eles acreditam e aceite apenas a verdade interna do grupo. Se o novo aliado está disposto a fazer isso, esse é um forte sinal do tipo de solidão que leva as pessoas a fazerem qualquer coisa para se sentirem aceitas, e essa é uma relação que já começa problemática.

Ainda há muito a se aprender sobre as causas e os efeitos da solidão em nossas sociedades. Essa é uma situação que está em pleno desenvolvimento e cujas consequências ainda não podem ser inteiramente visualizadas. Por ora, o que podemos fazer é ficarmos cientes da situação e não deixarmos que o isolamento nos domine. Um dos trechos do artigo da Superinteressante citado anteriormente diz:

Se você se sente só, o primeiro passo é admitir isso. Vale também buscar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra para entender os eventuais motivos pessoais, e profundos, que podem ter levado você a essa situação (como ansiedade ou depressão, por exemplo).

De toda forma, segue aqui uma dica que serve para todos os humanos: pare e pense nos sentimentos que você tem em comum com as outras pessoas. A começar por este: elas, assim como você, também estão se sentindo meio isoladas. Percebeu? Todo mundo anda meio solitário – e, exatamente por isso, você não está sozinho.